Professor, pesquisador, escritor e tradutor. Doutor em Ciência da Religião pela UFJF com pesquisa de pós-doutorado na UFPB. E-mail: danilo.smendes@hotmail.com
Professor, pesquisador, escritor e tradutor. Doutor em Ciência da Religião pela UFJF com pesquisa de pós-doutorado na UFPB. E-mail: danilo.smendes@hotmail.com
Os insetos monstruosos na Câmara
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Projeto aprovado beneficia diretamente o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros seis réus do chamado “grupo principal”
Plenário da Câmara dos Deputados na madrugada da votação do projeto que beneficia golpistas (Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados)

O que pode acontecer em uma noite? Não se sabe como, mas Gregor Sansa, personagem de A metamorfose, de Franz Kafka, se viu “metamorfoseado num inseto monstruoso”. Em uma noite, ele dorme como caixeiro viajante, mas acorda como inseto. Sua transformação radical, a metamorfose, não era esperada, não era programada, não tinha explicação. Ela se deu sem mais nem menos, do nada, repentinamente. Em uma noite, gente; de manhã, inseto monstruoso.

O que pode acontecer em uma noite? Sabemos bem como (e porque) Hugo Motta pautou um projeto de redução de pena para golpistas. Antes, somavam-se as penas de dois crimes (tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito), agora, diz o projeto, deve-se considerar a pena de somente um deles. A votação do projeto de lei foi pautada sem mais nem menos, do nada, repentinamente. Ela não era esperada, não era programada, mas tinha explicação. O congresso, que cada vez mais se apresenta como um inimigo do povo, tem interesse em proteger golpistas, ricos e corruptores (vide a derrotada PEC da Blindagem e o PL da Devastação) em claro desfavorecimento de pautas populares, como o fim da escala 6×1.

Entretanto, ao contrário de Gregor Sansa, a transformação do congresso em uma casa de insetos monstruosa não foi repentina. A noite de 9 de dezembro, em que o deputado Glauber Braga foi agredido depois de Hugo Motta ter enviado a polícia legislativa para retirá-lo da cadeira presidencial, talvez tenha sido paradigmática, mas não é mais do que o resultado de um longo processo de aproximação entre centro e extrema direita. Corrobora para nossa leitura o fato de que o presidente da Câmara ordenou que a TV Câmara cortasse a sua transmissão e os jornalistas fossem retirados do local — práticas típicas de um comportamento ditatorial tão zelosamente preservado pela extrema direita. Passo a passo, o congresso vai se tornando um lugar dos mais monstruosos totalitarismos.

A madrugada de 10 de dezembro é mais uma noite que deve ficar guardada na memória dos brasileiros e das brasileiras que ainda sonham com um país melhor. O Brasil não acordou como um inseto repentinamente. Todavia, noites como essas revelam as asas que surgiram na Câmara, as patas do autoritarismo que tentam golpear, pouco a pouco, a democracia, as antenas que tentam captar as rachaduras nos limites democráticos para forçar sua queda. A Câmara dos Deputados, olhando daqui, parece infestada de inimigos do povo — que, inclusive, fazem de tudo para retirar o povo dali. Quanto antes dedetizarmos, melhor.

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