
Existe um padrão histórico que já não pode mais ser tratado como coincidência. Sempre que os Estados Unidos decidem intervir em nome da democracia, o resultado raramente é liberdade, estabilidade ou prosperidade para os povos atingidos. O Iraque tornou se uma terra sem lei. A Líbia converteu se em um Estado falido. Em todos os lugares onde Washington afirmou levar valores democráticos, o que ficou foi o colapso das instituições e a deterioração da vida social.
Agora, esse mesmo roteiro ameaça se repetir na Venezuela, com consequências que ultrapassam em muito suas fronteiras nacionais.
Durante décadas, a América do Sul foi analisada pelas Relações Internacionais como uma das regiões mais pacíficas do mundo no que diz respeito a conflitos armados entre Estados. Violência urbana sempre existiu, mas guerras abertas eram exceção. Esse cenário começa a mudar quando uma potência externa decide transformar crises políticas internas em justificativa para intervenção e imposição de interesses estratégicos.
O discurso é conhecido. O regime é uma ditadura. É preciso libertar o povo. É necessário restaurar a democracia. A prática, no entanto, desmente a retórica. Os Estados Unidos nunca tiveram qualquer constrangimento em apoiar ditaduras quando elas serviram aos seus interesses. O problema nunca foi a ausência de democracia, mas a ausência de alinhamento político e econômico. O que está em jogo, mais uma vez, é o controle da maior reserva de petróleo do planeta e a reafirmação do poder norte americano no continente.
A escalada de ameaças e declarações belicistas aponta para um cenário de ruptura institucional iminente. Se um conflito armado se iniciar, milhares ou até milhões de venezuelanos buscarão refúgio em países vizinhos que já enfrentam sérias dificuldades econômicas. Outros tantos, os mais pobres, sequer terão essa opção. Para eles, restará o caos, a fome e a violência.
Internamente, a instabilidade tende a se aprofundar. A derrubada de um governo impulsionada por forças externas não produz consenso, mas fratura. Divisões nas Forças Armadas, disputas de poder e o risco concreto de uma guerra civil passam a fazer parte do horizonte. Sem uma liderança legítima e reconhecida, o Estado entra em colapso e o território transforma se em espaço de disputa de interesses estrangeiros.
A história recente demonstra que, após derrubar governos ao redor do mundo, os Estados Unidos raramente assumem qualquer responsabilidade pelas consequências. O país permanece. A sociedade se desagrega. O sofrimento se prolonga. Não se trata de libertação. Trata se de dominação, controle de recursos e demonstração de força.
A Venezuela corre o risco de tornar-se mais um capítulo dessa longa sequência de intervenções desastrosas. E, desta vez, o impacto não ficará restrito às suas fronteiras. Quando o Apocalypse Now chega às Américas, todos perdem.
Finalmente eu passo a temer que o Brasil vire uma Venezuela.