Professora aposentada do DSS da UFPB, Autora de "Os fios (in)visíveis da produção capitalista" e "Informalidade e precarização do trabalho: as novas tramas da produção capitalista"
Professora aposentada do DSS da UFPB, Autora de "Os fios (in)visíveis da produção capitalista" e "Informalidade e precarização do trabalho: as novas tramas da produção capitalista"
Nossa munição é a palavra
Compartilhe:
Foto: Maria Augusta Tavares

Se a morte me conceder algum tempo, quero saber do que vou morrer. Talvez haja alguma chance, se não de viver, ao menos de esticar o tempo para uma morte digna. Sendo otimista, posso encontrar outras pessoas na mesma situação, que queiram se aliar a mim na busca pela cura. Certo é que prefiro conhecer a verdade, para ser capaz de elaborar teoricamente o mal que me acomete.

Muitas vezes eu já disse que a minha munição é a palavra. Agora, face à ameaça trumpista, penso que a afirmação se aplica à América Latina.

O que podemos contra o império americano e a ambição desmedida do Trump? O que podemos contra o poder bélico americano, se este dispõe de um arsenal militar que inclui misseis hipersônicos e armas nucleares e nós – para o bem e para o mal – só temos a palavra. 

Por que para o bem e para o mal?

Porque a midia, tida como o quarto poder, às vezes, de modo discreto, outras sem nenhuma vergonha, usa a palavra em favor daquele que já é determinante, daquele que define o comportamento dos poderes formalmente constituídos. Sim, a mídia, com raríssimas exceções, tem estado a serviço do capital, portanto, rendida ao poder cujas armas querem deter, prioritariamente, o poder da palavra de quem se atreva a lhe fazer oposição. O capital quer matar a palavra que advém do conhecimento, esta arma que funda a consciência crítica e que, estranhamente, nos dá coragem de ir à luta, apesar do tamanho do nosso inimigo.

Clique aqui e leia todos os textos de Maria Augusta Tavares

Pois bem, há mais de 20 anos adquiri As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano que, na minha prateleira, fica cercado por autores como Francisco Wefort, Francisco de Oliveira, João Manuel Cardoso de Mello, Maria Isaura Pereira de Queiroz e outros brasileiros que me ensinaram a pensar a realidade da América Latina, no contexto da sociedade capitalista. Nunca um livro de História me emocionou tanto quanto este do Eduardo Galeano. Antes dele, eu via a História como algo externo a mim, separado da realidade atual. Fazia tempo que eu não voltava a esse autor que me pôs dentro da História.

O ataque à Venezuela, mexeu fundo na minha pequenez latina. Precisava de socorro. Pensei na nossa America Latina rendida a esse poderoso monstro que é Trump com o seu aparato de guerra. Precisava de um ombro onde eu pudesse chorar, mas também recuperar a coragem que eu pensava ter.

Voltei a Galeano. À nossa disposição, repito, só temos a palavra. Esta palavra precisa ser assertiva, valente, fundada no real. Neste sentido, recorro ao citado livro. No seu posfácio lê-se: “Esse livro é uma busca de chaves da  história passada, que contribui para explicar o tempo presente, (que também faz história), a partir da base de que a primeira condição para modificar a realidade consiste em conhecê-la. Nao é oferecido, no caso, um catálogo de heróis vestidos para um baile à fantasia, que, ao morrer em batalha, pronunciam longuísimas frases solenes, mas sim, indaga-se o som e a pegada dos passos de uma multidão que porventura apresente nosso recente caminhar.”

Compartilhe: