
O cinema brasileiro volta a mostrar sua força e projeta, para 2026, uma expectativa elevada em torno da maior premiação do audiovisual mundial: o Oscar. O Agente Secreto soma mais um reconhecimento internacional ao cinema nacional ao conquistar o Globo de Ouro, consolidando uma projeção que se estende por dois anos consecutivos.
Mais do que celebrar prêmios, porém, o que merece atenção é o ponto de contato entre as obras brasileiras recentemente laureadas: ambas revisitam um dos períodos mais sombrios da nossa trajetória histórica, a ditadura militar.
O regime instaurado no Brasil entre 1964 e 1985 não foi um episódio isolado. Inseriu-se em uma lógica mais ampla de intervenções dos Estados Unidos na América Latina, no contexto da Guerra Fria, cujos efeitos ainda reverberam no continente. Não por acaso, filmes que abordam esse passado recente voltam a ganhar destaque justamente em um tempo marcado por negacionismos, discursos autoritários e ameaças recorrentes à democracia.
O cinema possui uma força singular: transforma dados, estatísticas e documentos em experiências sensíveis. Dá rosto às vítimas, voz às resistências e corpo à História. Através da atuação, da fotografia e da música, a arte nos desloca no tempo, criando memórias que permanecem. São imagens, palavras e gestos que se fixam de maneira duradoura em nossa consciência coletiva.
Não por acaso, a memória ocupa lugar central desde a Antiguidade. Na mitologia grega, ela é personificada por Mnemósine, mãe das Musas, entre elas Clio, a musa da História. Essa genealogia simbólica não é mero detalhe: lembra-nos que não há História sem memória, nem cultura sem lembrança. Esquecer, portanto, nunca é um gesto neutro.
O Agente Secreto inscreve-se nessa tradição ao transformar o passado em denúncia e reflexão. Sua vitória extrapola o campo artístico e assume um significado político e simbólico nos dias atuais. Como advertiu a historiadora Emília Viotti da Costa, “um povo sem memória é um povo sem história”. Relembrar a ditadura não é um exercício de nostalgia ou revanchismo, mas um compromisso com a democracia.
Em tempos de revisionismos convenientes e apagamentos deliberados, o filme nos recorda que a História não é algo encerrado. Ela insiste, retorna e cobra posicionamento.
Que venham mais agentes secretos da História.