Advogado Popular, Professor de Direito, Mestre em Ciências Jurídicas (UFPB). Ex-Presidente do Conselho Estadual dos Direitos Humanos da Paraíba (CEDH/PB).
Advogado Popular, Professor de Direito, Mestre em Ciências Jurídicas (UFPB). Ex-Presidente do Conselho Estadual dos Direitos Humanos da Paraíba (CEDH/PB).
Os raparigueiros e os ciumentos
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(Imagem: Reprodução/Instagram)

Eu morro de vergonha, mas é fato: no Brasil, quem posa de raparigueiro geralmente é também um baita ciumento. Aqui cabe um disclaimer, para evitar cancelamentos: eu poderia usar os termos “mulherengo”, “conquistador” ou até “sedutor”, mas opto por raparigueiro num tom mais coloquial e popular só para chamar atenção nesta crônica mesmo. Nunca, jamais para desabonar a conduta das mulheres que, naturalmente, podem e devem fazer o que quiserem com seus próprios corpos, desejos e vontades.

Na vida, conheci uns dois ou três raparigueiros de verdade. E só um bem de perto. São raros. E sabe o que todos tinham em comum? Eram felizes. De verdade. Não estavam nem aí se as mulheres com quem ficavam (e traíam) também botavam chifre neles.

O raparigueiro raiz acha que, se a mulher pulou a cerca, é saudade dele:
“A bichinha ficou sem mim, teve que se virar com outro pra matar o tempo.”
Ele se vê nela, entende?

Em vez de ficar com raiva, ele se comove. Olha pro outro cara e pensa:
“Poxa, tadinha… esse foi o mais parecido comigo que ela achou.”
Ou ainda:
“Boa escolha. Esse até tem uns traços meus.”

Agora, o ciumento que se diz raparigueiro… esse é inseguro, gasta energia à toa, não gosta de si o bastante. Talvez nem goste de mulher. Às vezes até tem o molho, mas não é eficiente. Em suma: não é raparigueiro de verdade.

O ciúme vem da esperança de que a mulher “amada” não perceba que está mal servida. O ciumento morre de medo de que ela descubra que pode arrumar alguém melhor. E ela sempre pode.

Já o raparigueiro raiz não sofre com isso. Ele acha que já deu sorte demais. Mesmo quando a mulher arruma outro esquema, ele pensa:
“Oxe, tô no lucro.”

O ciumento, por outro lado, surta, como se a mulher tivesse descoberto a verdade inescapável: que existem outros caras melhores.

Quando conquista uma mulher, o raparigueiro raiz não conjectura:
“Te peguei de jeito.”
Ele pensa algo como:
“Você tem razão, eu sou mesmo incrível. E ainda sou sensível o bastante pra reconhecer o quanto você é especial.”

Quando não é o escolhido do dia, raciocina assim:
“Se desse, você ia pra cama comigo. Mas como eu tava ocupado, foi com o mais parecido que achou.”

Claro que o raparigueiro também aprende a fingir ciúme, faz parte do show. Só as mulheres mais espertas percebem que é atuação. O ciúme fingido é o orgasmo fingido dos homens.

E nós sabemos fingir bem: não é fazendo escândalo, como um machista violento. É com gestos sutis, quase elegantes, de quem finge estar escondendo algo que, na verdade, nem sente.

Dizem que raparigueiro tem problema de autoestima. Besteira. Ele tem é autoestima demais, por isso quer ver o maior número possível de mulheres o estimando.

E não: o fato de não ter ciúme não significa que ele não goste das mulheres. Pelo contrário. Ele gosta de todas, e com uma sinceridade até bonita de ver. Quando está com uma, está mesmo com ela. O erro delas é achar que ele mente o tempo todo. Ele só mente quando é absolutamente necessário, tipo quando diz que “não existe ninguém além de você”.

O que mais choca as ex de raparigueiros raiz é descobrir que, enquanto estavam com ele, havia concorrência. Aí perguntam:
“Mas ele gostava mais de mim ou das outras?”
Pergunta errada. Repito: ele gosta de todas. Não vê as outras como “vadias”, “loucas” ou “bobas”. São todas especiais, dentro do tempo de cada uma.

Com a ficante antiga, que ele vê uma vez a cada três meses, é carinho nostálgico. Com a nova, é paixão de novela. Com a de cinco anos, passa cinco horas por mês. Com a que conheceu há cinco horas, passa cinco semanas seguidas. Assim mantém a chama acesa, administrando perdas, desistências e recaídas.

Para conseguir ficar meses sem ver uma mulher, não sentir ciúmes e ainda fazer festa quando reencontra, o sujeito precisa ser raparigueiro nível hard.

Ciumentos, fiquem atentos: raparigueiros são melhores.
E quem mais tem a perder não são as mulheres, são vocês. Os que acham que não correm risco sendo controladores.

Às mulheres, um aviso final, com carinho e respeito:
vocês não são prêmio, nem território, nem espelho da insegurança masculina. Se um homem tenta lhes vender ciúme como prova de amor, mete um block nele, como canta João Gomes. Amor não vigia, não confina, não ameaça. Amor confia, ou, no mínimo, tem a decência de não fazer escândalo quando perde.

No mais, escolham bem.
E, se puderem, escolham vocês mesmas primeiro.

Cuidado.

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Palavras-chave
crônica