
Resolvi aceitar o conselho de uma amiga querida e baixei o Tinder.
Segundo ela, fazia bem para a autoestima. Não para aumentar, isso seria milagre, mas para colocá-la em perspectiva.
Entrei em junho.
O que significa dizer que não entrei num aplicativo de encontros, mas numa espécie de São João expandido, versão digital, sem milho assado, mas com filtros.
Encontrei quarenta e sete mulheres de bota no Parque do Povo, todas lindas, todas sorrindo, todas perfeitamente adequadas para um catálogo junino. Nenhuma para mim. Muita areia para o meu caminhãozinho emocional.
Vi trinta e oito mulheres de camisa listrada e chapéu de cowboy, algumas em Campina Grande, outras no Terreiro do Forró de Patos, todas absolutamente corretas, seguras de si, felizes. Também nenhuma para mim. Continuava areia demais.
Apareceram vinte e nove mulheres no Lovina, em João Pessoa, sempre ao pôr do sol, sempre com um drink que parecia caro e uma felicidade que parecia bem administrada. Mulheres interessantes, bonitas, resolvidas. Todas, sem exceção, fora do meu orçamento afetivo.
Havia ainda o setor aventura.
Nove mulheres no Pico do Jabre, sete na Pedra da Boca, cinco no Vale dos Dinossauros, em Sousa. Corajosas, inteligentes, conectadas com a natureza e com a ancestralidade. Nenhuma parecia precisar de um homem que escreve crônicas irônicas sobre o Tinder. Justo.
Li as bios.
Todas bem escritas. Algumas citavam viagens, outras falavam de autocuidado, outras diziam saber exatamente o que querem, e sabiam mesmo. Mulheres maduras, interessantes, bonitas. Todas, de novo, areia demais para o meu caminhãozinho cansado.
De repente, alguém que achei que daria match!
Texto curto, sem firula, sem espiritualidade de prateleira:
“Se vier com papo de terraplanismo, antivacina ou dizendo que não foi golpe, nem venha.”
Gostei.
Pela primeira vez, senti curiosidade real.
Não era arrogância, era higiene mental.
Rolei a tela com atenção.
Li de novo.
Sorri.
Quando vi a foto, levei um susto manso, desses que não assustam, só reorganizam a memória.
Era Júlia, minha amiga de infância. Divorciada. Inteligente como sempre.
Antes da transição, se chamava Armando.
Deletei o aplicativo.