Advogado Popular, Professor de Direito, Mestre em Ciências Jurídicas (UFPB). Ex-Presidente do Conselho Estadual dos Direitos Humanos da Paraíba (CEDH/PB).
Advogado Popular, Professor de Direito, Mestre em Ciências Jurídicas (UFPB). Ex-Presidente do Conselho Estadual dos Direitos Humanos da Paraíba (CEDH/PB).
Conselho de amiga
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(Foto: Reprodução/Instagram)

Resolvi aceitar o conselho de uma amiga querida e baixei o Tinder.
Segundo ela, fazia bem para a autoestima. Não para aumentar, isso seria milagre, mas para colocá-la em perspectiva.

Entrei em junho.
O que significa dizer que não entrei num aplicativo de encontros, mas numa espécie de São João expandido, versão digital, sem milho assado, mas com filtros.

Encontrei quarenta e sete mulheres de bota no Parque do Povo, todas lindas, todas sorrindo, todas perfeitamente adequadas para um catálogo junino. Nenhuma para mim. Muita areia para o meu caminhãozinho emocional.

Vi trinta e oito mulheres de camisa listrada e chapéu de cowboy, algumas em Campina Grande, outras no Terreiro do Forró de Patos, todas absolutamente corretas, seguras de si, felizes. Também nenhuma para mim. Continuava areia demais.

Apareceram vinte e nove mulheres no Lovina, em João Pessoa, sempre ao pôr do sol, sempre com um drink que parecia caro e uma felicidade que parecia bem administrada. Mulheres interessantes, bonitas, resolvidas. Todas, sem exceção, fora do meu orçamento afetivo.

Havia ainda o setor aventura.
Nove mulheres no Pico do Jabre, sete na Pedra da Boca, cinco no Vale dos Dinossauros, em Sousa. Corajosas, inteligentes, conectadas com a natureza e com a ancestralidade. Nenhuma parecia precisar de um homem que escreve crônicas irônicas sobre o Tinder. Justo.

Li as bios.
Todas bem escritas. Algumas citavam viagens, outras falavam de autocuidado, outras diziam saber exatamente o que querem, e sabiam mesmo. Mulheres maduras, interessantes, bonitas. Todas, de novo, areia demais para o meu caminhãozinho cansado.

De repente, alguém que achei que daria match!
Texto curto, sem firula, sem espiritualidade de prateleira:

“Se vier com papo de terraplanismo, antivacina ou dizendo que não foi golpe, nem venha.”

Gostei.
Pela primeira vez, senti curiosidade real.
Não era arrogância, era higiene mental.

Rolei a tela com atenção.
Li de novo.
Sorri.

Quando vi a foto, levei um susto manso, desses que não assustam, só reorganizam a memória.

Era Júlia, minha amiga de infância. Divorciada. Inteligente como sempre.
Antes da transição, se chamava Armando.

Deletei o aplicativo.

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