
1- Dom João V: o Rei-Sol português
O romance de Saramago, Memorial do Convento, descortina um período icônico da história portuguesa e europeia. O absolutismo do sec. XVIII não foi apenas uma forma de governo caracterizada pela falta de limites para o gozo e exercício do poder, foi também a expressão estética da extravagância de uma elite que se acreditava sagrada, dotada de um mandato divino. O barroco manuelino é a face visível dessa extravagância estética. A Biblioteca Joanina, localizada em Coimbra, é uma das realizações do reinado de Dom João V, considerada pelo jornal britânico The Telegraph a mais espetacular biblioteca do mundo. Muito já se disse do estilo literário de Saramago, sua pontuação peculiar (não convencional) ao não usar os sinais gráficos gramaticais, abolindo o uso do travessão para marcar os diálogos entre personagens, preferindo uma narrativa fluida no estilo fluxo de pensamento, trazendo também a oralidade portuguesa para a narrativa literária. Mas um traço da estética de Saramago que não escapa à percepção, é seu caráter barroco. Daí, talvez, sua afinidade com o tema do Memorial do Convento, a construção do Palácio de Mafra no reinado absolutista de Dom João V, não por acaso chamado de O Magnânimo.
O início de Memorial do Convento descreve o lado cômico do casamento entre Dom João V (1689-1750) e sua esposa Maria Ana de Áustria (1683-1754), os banquetes pantagruélicos seguidos de tentativas frustradas de engravidar a rainha de origem austríaca. A descrição dos cerimoniais da corte portuguesa do sec. XVIII já remetem o leitor para um mundo fáustico e ao mesmo tempo cômico. O casamento como a aliança entre elites europeias para perpetuar ou reconfigurar redes de poder. De outro lado, a plebe assolada pela pobreza, mantida na ignorância, servindo com seus corpos produtivos para gerar a riqueza que se concentrava (e concentra) para o gozo fáustico de uma elite econômica e política. Saramago, em Memorial do Convento, descortina também a farsa do poder absolutista. E essa farsa política se expressa e materializa no Palácio de Mafra, construído no reinado de Dom João V, o Rei-Sol português, que nadando no ouro extraído de sua rica colônia brasileira, visa cumprir a promessa feita a um membro da igreja que, se Deus lhe desse um herdeiro varão, construiria um convento em Mafra, próxima a Lisboa. Além do Palácio de Mafra, Dom João V foi responsável pela construção do Aqueduto das Águas Livres, emulando os potentados romanos.
Se o reinado do Rei-Sol português imortalizou-se pela extravagância arquitetônica, o bulionismo econômico (metalismo) do absolutismo português, ao final do seu reinado, só aumentou a distância industrial e tecnológica com relação às outras nações do norte da Europa. O bulionismo ibérico que acreditava no acúmulo de ouro e prata como única fonte de riqueza, sem desenvolver uma indústria nacional; aliada ao controle social pela religião que castrava o desenvolvimento do senso crítico, essencial ao invento industrial e científico, inviabilizaram qualquer projeto de fazer Portugal uma verdadeira potência. Tudo isso, ao final do reinado de Dom João V, fez de Portugal um reino mágico de estética arquitetônica e musical mas atrasado em matéria de arte industrial e comércio. Enquanto o napolitano Domenico Scarlatti, o maior cravista de sua geração, fazia música barroca em Lisboa, deleitando os ouvidos de sua elite, o reino de Portugal perdia a corrida da inovação industrial e comercial para ingleses e holandeses, mergulhando o povo português na pobreza crônica e no misticismo religioso.
2- O ouro do Brasil e o palácio de Mafra
O reinado de Dom João V correspondeu à idade de ouro do absolutismo português, literalmente durante os seus 43 anos de império, entraram em Portugal centenas de toneladas de ouro vindos do Brasil, sem contar os diamantes descobertos e extraídos da região de Diamantina, em Minas Geais. No período de regência de Dom João V, Portugal literalmente nadava em ouro e diamante, em meio à tamanha abundância, o Rei-Sol português queria deixar sua marca na história, através de edificações faraônicas. O Palácio do Convento de Mafra foi projetado pelo arquiteto, engenheiro militar e ourives João Frederico Ludovice (Johann Friedrich Ludwig), de origem germânica e convertido ao catolicismo na Itália, sendo responsável pelo desenho da obra. O Palácio de Mafra ocupa uma área aproximada de 4 hectares, com o jardim e o parque cercado, chega a 1 200 hectares. Não por acaso, Saramago elege esse fato e monumento histórico, construção do Palácio de Mafra, como tema de seu romance Memorial do Convento. Corresponde, em linhas gerais, a um período icônico de Portugal e da Europa, na França há a Corte de Versalhes; na Rússia, Pedro o Grande decide construir sua nova capital, do nada e sobre um terreno pantanoso, a cidade de São Petersburgo. O poder absolutista, como toda forma de poder, precisa de seus símbolos, sem os quais o poder não fascina e pragmaticamente não funciona. O Palácio de Mafra se irmana à Corte de Versalhes na França, mais antiga e mais rica, mas atendendo à mesma simbologia política absolutista. O Palácio de Versalhes foi expandido e se converteu na sede principal da corte francesa em 1682, sob o reinado de Luís XIV, o Rei-Sol. A construção de São Petersburgo, iniciou-se em 1703 sob a regência do Czar Pedro o Grande, após a vitória sobre o exército sueco, tido como o mais poderoso da Europa na época. O simbolismo político de Versalhes, São Petersburgo e o Palácio de Mafra oculta, entretanto, a dura face da edificação desses monumentos. A massa humana que foi mobilizada em Versalhes, São Petersburgo e Mafra. Por trás do símbolo há o homem, só para a construção da cidade de São Petersburgo, estima-se, morreram cerca de 30 mil pessoas. A bela São Petersburgo é uma cidade erguida sobre ossos, pois construída sobre um pântano em brutais condições de trabalho. A construção do Palácio de Versalhes durou 50 anos, mobilizando dezenas de milhares de trabalhadores em condições insalubres, sendo frequente a doença e morte entre estes. Em Versalhes, sequer se tem um número estimado de mortes laborais. Em Mafra, entre 1717 e 1730, o número oficial é de 1.383 trabalhadores mortos para erguer o belo Palácio de Mafra em Portugal. Imperdível é a ironia de Saramago ao retratar essas contradições da história:
“É uma pedra só, por via destes e outros tolos orgulhos é que se vai disseminando o ludibrio geral, com suas formas nacionais e particulares, como esta de afirmar nos compêndios e histórias, Deve-se a construção do convento de Mafra ao rei D. João V, por um voto que fez se lhe nascesse um filho, vão aqui seiscentos homens que não fizeram filho nenhum à rainha e eles é que pagam o voto, que se lixam, com perdão da anacrónica voz.” (Memorial do Convento. p. 266)
Os trabalhadores, em situação de escravidão, muitos acorrentados para não fugir, que não fizeram promessas e não prenharam rainhas, é que, com as mãos e muitas vezes a vida, ergueram o Palácio de Mafra. A genialidade de Saramago descortina como a massa ignara (aqui no sentido de esquecida, ignorada) de trabalhadores era tratada:
“Juntam-se os homens que entram hoje, dormem onde calhar, amanhã serão escolhidos. Como tijolos. Os que não prestarem, se foi de tijolos a carga, ficam por aí, acabarão por servir a obras de menos calado, não faltará quem os aproveite, mas, se foram homens, madam-nos embora, em hora boa ou hora má. Não serves, volta para a tua terra, e eles vão, por caminhos que não conhecem, perdem-se, fazem-se vadios, morrem na estrada, às vezes roubam, às vezes matam, às vezes chegam.” (Memorial do Convento. p. 307)
3- Padre Bartolomeu de Gusmão: o padre voador
Saramago, em Memorial do Convento, usa a estética literária para alargar a interpretação da história oficial. Resgata personagens históricos hoje esquecidos, como o padre Bartolomeu de Gusmão (1685-1724), misturando-o com outros fictícios, como Baltasar e Blimunda. O padre Bartolomeu, em especial, é um retrato do século XVIII, assim definido por Camilo Castelo Branco:”o maior homem que deu o século XVIII a Portugal”. Nascido em Santos, lembra muito um outro brasileiro que surgiria tempos depois, Santos Dumont (1873-1932), sobretudo seu pendor inventivo por engenhocas voadoras. Nascido na capitania de São Vicente, o jovem Bartolomeu impressionava a todos com sua imensa memória, capaz de citar longos trechos da Bíblia e articulá-las entre si. Além do português, Bartolomeu conhecia o latim, grego, hebraico, inglês, holandês, francês e italiano. Humanista erudito e cientista, dedicava-se às matemáticas e à mecânica, sendo o autor da primeira patente expedida na América (o invento para fazer subir água a toda a distância e altura que se quiser levar) em 1707 por Dom João V. Mas a invenção que o notabilizaria seria conhecida popularmente como a Passarola, em verdade Bartolomeu de Gusmão é o inventor do aeróstato ou balão de ar quente. Em 1709 requereu a patente para “um instrumento para se andar pelo ar”. O invento ficou conhecido em toda a Europa como uma “barca em formato de pássaro”, a Passarola. O mito e a caricatura do real invento, balão movido a ar quente, foi propalado pelo próprio Bartolomeu de Gusmão para resguardar o segredo industrial de sua patente. O desenho de uma barca em formato de pássaro foi feita por ele mesmo. A exótica Passarola ganhou a imaginação popular no sec. XVIII, entretanto o real invento, o aeróstato, foi exibido para a corte portuguesa e Dom João V. Pela primeira vez na história o homem criou um artefato que voava sem propulsão, as experiências foram várias, eram pequenos balões que logo que subiam, incendiavam-se. Bartolomeu aperfeiçoou o experimento, até conseguir realizar voos mais longos e descer sem estrépito. Por não ter sido conhecido e reconhecido pela comunidade científica da época, ficando restrito à corte de Dom João V, o aeróstato do padre Bartolomeu não passou de um experimento exótico de uma corte extravagante. Se seu invento tivesse recebido a acolhida devida, teria antecipado em várias décadas a teoria cinética dos gases. A fama pela invenção do aeróstato ficou com os irmãos Montgolfier que o reinventaram setenta e quatro anos após Bartolomeu de Gusmão, em 1783, com um balão de linho, usando o mesmo princípio de Gusmão. Em 1901, outro brasileiro, Santos Dumont, concluiria o trabalho iniciado por Gusmão, ao construir o primeiro balão dirigível.
Bartolomeu de Gusmão ficou conhecido como o padre voador, através de sua engenhoca: a Passarola. Em Memorial do Convento, Saramago explora o mito e faz a caricatura de uma arca em forma de pássaro, com aerodinâmicas asas e esferas metálicas, voar com o padre Bartolomeu e os pitorescos Baltasar, o soldado maneta, e Blimunda, a mulher que tinha poderes mágicos. O realismo fantástico de Saramago trouxe ao protagonismo literário a figura histórica do padre Bartolomeu de Gusmão, homem de ciência, inventor de um tempo dominado pela igreja. Como Paracelso (1493-1541), Bartolomeu de Gusmão foi um híbrido entre o mundo medieval que desaparecia e a modernidade científica que nascia. Era um membro da igreja (que detinha o monopólio da ciência no mundo ibérico da época) e ao mesmo tempo um homem de ciência; crente cristão e inventor científico. Um homem literalmente com os pés em dois mundos: religião e ciência; Europa e América. O padre voador é o protótipo do que viria a ser, em sua forma mais madura, o cientista e inventor Santos do Dumont, um dos inventores do avião moderno. E como Santos Dumont, Bartolomeu de Gusmão era um homem com seus conflitos internos e contradições. Foi consumido por uma crise religiosa e patologias psíquicas, passando a crer que seria ele e não Cristo o verdadeiro messias bíblico. Sua invenção do aeróstato o fez crer que pela tecnologia poderia subjugar outros povos e ele mesmo construir o Quinto Império, crença messiânica-milenarista. Segundo Antônio Vieira, Portugal seria o Quinto Império, levando o cristianismo a todos os povos da terra, criando uma era virtuosa de mil anos de paz e prosperidade.
O padre voador, ironicamente morreu louco na Espanha. Temendo a Inquisição, queimou seus arquivos, impedindo o conhecimento de muitos dos seus inventos. Em uma fuga tresloucada para a Inglaterra, Gusmão terminou desistindo e partindo a pé para Paris, através da Espanha. Entretanto, logo em Toledo na Espanha, adoeceu e morreu. Bartolomeu, o padre voador, o inventor do primeiro balão a ar quente, o criador mítico da Passarola que conquistou o imaginário europeu, faleceu louco, crendo-se o verdadeiro messias. Entre a crise religiosa e as patentes científicas, Gusmão virou mito. Seu irmão, Alexandre de Gusmão (1695-1753) se tornou importante diplomata, responsável pelo Tratado de Madri (1750) que definiu as fronteiras do Brasil moderno.
4- Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas (O soldado maneta e a feiticeira)
Memorial do Convento é uma narrativa em várias camadas onde a vida luxuosa e extravagante da corte portuguesa é contraposta à existência simples, dramática e muitas vezes miserável do povo português da época. Memorial do Convento não é só uma arqueologia do poder absolutista em Portugal, é também uma microfísica da existência dos oprimidos e explorados. Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas, já se disse, são um dos casais mais simbólicos e comoventes da história da literatura universal. Baltasar perde a mão esquerda em uma batalha, maneta, coloca um gancho em seu lugar. Sua existência é um inventário de opressões da época. É um mutilado de guerra, volta faminto e miserável para sua casa, sendo arregimentado para trabalhar em Mafra em troca de comida, termina dispensado quando não tinha mais serventia. Sua existência periférica e maltrapilha finda na fogueira da Inquisição. Baltasar é o herói do povo em uma época assolada pelo absolutismo estatal, o controle religioso e a miséria generalizada. Baltasar Sete-Sóis lembra, ainda que timidamente, Miguel de Cervantes que fica maneta em uma guerra a serviço da Coroa Espanhola. Os mutilados de guerra são comuns na Europa belicista, Luís Vaz de Camões ficou caolho nas guerras portuguesas no norte da África. Blimunda Sete-Luas é o protótipo da bruxa medieval, a mulher fora dos padrões por ter poderes sobrenaturais. Blimunda tinha o poder de ver o interior das pessoas, animais e coisas. Em certa passagem de Memorial do Convento ela vê uma hóstia e enxerga nela apenas uma sombra escura. Eram aqueles os tempos da Inquisição, a mãe de Blimunda, que também tinha poderes, foi queimada na fogueira. O Sete-Luas de Blimunda remete ao arquétipo do “eterno feminino” (Ewig-Weibliche), idealidade transcendental, força unificadora e princípio criativo associado ao feminino. Blimunda, assim, é uma força que eleva a narrativa, uma energia redentora de sabedoria e beleza. O par romântico Baltazar e Blimunda humaniza a narrativa, explorando a microfísica dos oprimidos e desnudando a semiótica das paixões dessa camada narratológica. Se os ricos da corte têm o poder de vida e morte sobre seus súditos, ao povo sobra sua fé e, aos mais afortunados, o amor erótico. O par enamorado Baltasar/Blimunda é a força vital, o Eros narrativo que se contrapõe ao Tânatos da miséria, opressão e morte da plebe. Essa semiótica das paixões, a camada erótica do romance é tensionada pela força castradora da inquisição e absolutismo monárquico.
Esse tensionamento ou dialética narrativa evidencia-se quando: em um polo há a descrição da construção do Palácio do Convento de Mafra, por ordem de el-rei Dom João V, o Magnânimo; e por outro lado, na microfísica da narrativa, o padre Bartolomeu, Baltasar e Blimunda compõem a trindade que voa sobre uma Mafra oprimida através de uma máquina voadora: a Passarola. A engenhoca do padre voador, que conta com a ajuda de Baltasar e Blimunda, é a metáfora da libertação dos oprimidos. O próprio padre Bartolomeu termina também sendo perseguido pela Inquisição.
Conclusão
José Saramago termina compondo uma obra-prima da literatura universal ao retratar a construção do Convento de Mafra. Ele mesmo é alguém, como Baltasar e Blimunda, saído do povo, “levantado do chão”, para narrar a história portuguesa em prosa ficcional. Seu romance histórico é uma arqueologia do poder absolutista da primeira metade do sec. XVIII, no período de maior riqueza do império português, revelando como aquela riqueza fabulosa foi desperdiçada pelo monarca Dom João V. Enquanto seu povo padecia na miséria, el-rei e o clero gastavam fortunas em palácios suntuosos e banquetes pantagruélicos, sustentados pelo ouro vindo do Brasil. Saramago era um intelectual de formação marxista mas fascinado pela estética do barroco, não por acaso escolheu esse período da História para ser retratado em Memorial do Convento. Para tal empreitada literária, enriqueceu a narrativa de Memorial do Convento de léxico barroco, inundando o vernáculo com o luxo das palavras para desnudar a inutilidade do poder absolutista de reis e rainhas. O que de fato é majestoso é a humanidade que emana do texto de Saramago, em Memorial do Convento. Conta-se que José Saramago pediu para ser cremado com um exemplar de Memorial do Convento quando de sua morte, fato ocorrido em 2010. Eternizado em uma prosa barroca e reluzente, como Baltasar e Blimunda, Saramago é um autor que orgulha, humaniza e enriquece qualquer literatura do mundo. É um privilégio para os leitores de língua portuguesa ter um escritor assim.
Fonte Bibliográfica:
SARAMAGO, José. Memorial do Convento. 37 ed. Lisboa/PT: Editorial Caminho, 2005.