
A cidade trouxe um mundo novo para mim. Agora, passei a entender porque os meninos do sítio diziam que iam à cidade quando precisavam de alguma coisa feita, como um chinelo. Eles não se referiam ao nome da cidade. A cidade era tudo aquilo que enfileira casas em ruas calçadas com igreja, escola, prefeitura, armazém de Pula, farmácia de seu Elias. Onde se achava as coisas prontas. E todas as coisas prontas estavam meio escondidas, meio cercadas. Os quintais e os jardins eram murados. No sítio, tudo era a céu aberto.
Fiquei espantando quando Roga me disse que na cidade as pessoas andavam de sapatos todo dia, inclusive as crianças. Pés descalços e chinelos eram impeditivos para festas, aulas, missas. Até para jogar bola era preciso um sapato com sola de borracha, empanando o pé. Mas Roga também me disse que era fácil aprender esse modo de vida. Bastava usar tudo que todo mundo usava. Ele dizia que a gente deveria imitar os outros. Tudo. Jeito de falar, de vestir, de comer. Tudo. Imitar tudo. E seríamos vistos sem espanto. Ficávamos mais parecidos uns com os outros. E ninguém notaria as nossas marcas. E, completava, lembre-se: “cabrito bom é aquele que não berra”.
E, por isso mesmo, ele dizia que não se podia discordar do pai, muito menos da mãe. A ordem era obedecer e se calar. E Roga, dizia mais: nunca fale de seu pai, porque mesmo com seu jeito agoniado é o melhor das redondezas. Ele lê, tem letra bonita e sabe fazer conta. Ninguém iria entender. Seu pai não bate em você, nem em sua mãe! Não rapariga, nem joga. Deixou de fumar para você não fumar! E ainda papeia com a gente. E mais, sempre diga que gosta dos dois igualmente. Diga também que os dois são tão juntos que quando um se for, o outro vai logo em seguida. E todos irão acreditar que eles viveram um amor de eternidade. E assim fiz!
Na escola era um bobo no meio de meninas e meninos urbanizados. Não sabia que se lavava o cabelo com xampu. Para mim, boi era unicamente marido da vaca. O banho de mar era somente aos domingos e ao sabor do sol, não sabia o que era um luau. Foto de lambe-lambe era alta tecnologia. E, mais uma vez, lá vem Roga me alertar que a gente não morava na Capital, e sim, em sua periferia.
Mesmo encaixotado pelo tempo num espaço espremido, passei no vestibular da federal e fiquei abestalhado pela desenvoltura das jovens universitárias. Foi quando estudei e saí das fronteiras territoriais da província, começando a desanuviar os limites dos meus sentidos, viajando pelas leituras. Achava que sabia francês e compreendia Simone de Beauvoir. E ainda dizia, com a convicção dos crentes, que Bentinho era traído por sua alma. Estudar e farrear possuíam um elo encantador. Era como brincar pelos sítios de tantas roças, fruteiras, riachos e matas. Derrubar uma manga com um rebolo certeiro era como ser livre.
Mas, em seguida, o trabalho veio me segurar, disciplinando, decompondo estruturas e montando outras. Encapsulando-me. A vida ia me domando, me amarrando em nós cegos, me dobrando em sinos agudos e repetitivos. Acuando meus ouvidos. Jogando-me contra a parede. Eu não jogava mais bola, virei um torcedor de um time só. Ansiando para a equipe fazer gol e amedrontando-se para não levá-lo. Deixei de lindar a mão divina de Maradona!
E, cada vez mais, o peso do dia a dia foi me envergando, obrigando-me a fazer cirurgias e pilates, protocolarmente, três vezes por semana. E quando digo que aquilo me cansa, lá vem Roga como um santo: agradeça a Deus por lhe dar um profissional de saúde que lhe estica.
Não aguento mais Roga! Queria emudecê-lo, mas antes quero deixá-lo surdo com um grito amigdalado, garganteando notas musicais dissonantemente sangradas. Cantando como cantadores do nordeste brasileiro: Roga, meu grande irmão, cabrito bom é aquele que berra!