Anderson Pires é formado em Comunicação Social – Jornalismo pela UFPB, publicitário e cozinheiro.
Anderson Pires é formado em Comunicação Social – Jornalismo pela UFPB, publicitário e cozinheiro.
Botulismo familiar
Compartilhe:
Foto: reprodução Facebook

Quando criança, nos anos setenta e oitenta, escutei algumas histórias sobre pessoas que morreram em decorrência do consumo de enlatados. Nessa época, algumas latinhas ficaram famosas: sardinhas, kitutes, feijoadas e as desejadas salsichas tipo Viena da Swift. Desde cedo, aprendíamos que as latas não poderiam estar amassadas ou com pontos de ferrugem pelo perigo em contrair o botulismo.

Para quem não sabe, botulismo é uma intoxicação neurológica rara e grave, causada pela toxina da bactéria clostridium botulinum, que ataca os nervos e causa paralisia muscular progressiva, podendo levar à insuficiência respiratória e morte. As famosas latinhas eram um ambiente propício para o desenvolvimento da bactéria, já que são anaerobias.

Os bonitos rótulos com artes bem elaboradas e fotos apetitosas, muitas vezes, mascaravam o estado de putrefação dos alimentos e a intoxicação pela bactéria que poderia levar a morte. Os produtos em conserva sempre prezaram pela imagem atraente, com aparência íntegra e adequada a todos os padrões, inclusive morais. Afinal, mais importante é parecer do que ser.

Chegamos ao carnaval de 2026, a escola de samba Acadêmicos de Niterói apresenta um enredo em homenagem ao presidente Lula, recheado de críticas a Bolsonaro e seus seguidores. Em uma de suas alas desfilou a Família em Conserva. Uma criativa analogia com as comidas enlatadas, que apesar da aparência saudável, podem estar impregnadas de mazelas e até provocar a morte.

A imagem da família enlatada gerou críticas e ataques recheados de ódio pelos conservadores, com interpretações de cunho eminentemente político, com o intuito de desviar o foco sobre o questionamento a falsa moral, além de criar um discurso em defesa da instituição família como expressão religiosa.

Clique aqui para ler todos os textos de Anderson Pires

Para os membros da Família em Conserva, aquela que seus membros pregam mandamentos rígidos, a alegoria soou como uma agressão, um ataque direto a evangélicos e católicos fervorosos, que propagam fotos singelas com suas famílias perfeitas.

Para esses, mais grave que crimes e práticas abusivas contrárias aos seus próprios preconceitos, é o fato de uma escola de samba escancarar a hipocrisia familiar, pautada, principalmente, na moral cristã. Fazendo um paralelo com o alimento enlatado, a culpa seria do abridor de latas, que revelou a podridão dentro da embalagem de rótulo bonito.

A Família em Conserva abriga o pai religioso que tem na vida paralela amantes. É a mesma que condena a homossexualidade e trata como doente o filho gay. Oprime tanto, que alguns desistem de viver. Mesmo assim, seguem justificando a violência como uma vontade divina. São os hipócritas que usam o nome de Jesus para tudo que é conveniente, mas espancam a mulher e estupram a filha.

O ódio expressado pelos que se sentiram agredidos com o desfile da escola de samba tem origem na incoerência, na farsa que vivem. Fazem exacerbação da instituição família, como se escondesse todos os pecados que cometem. Imagino a insegurança de quem vive pregando moralismo, mas treme quando fareja o risco que suas orgias sejam reveladas.

O que o conservador mais tem medo é do julgamento. Já que paira na mente deles a possibilidade de condenação pós-morte. Imagine o pânico de terem seus pecados e ilícitos revelados em vida. Se abrirem a lata, irá feder. Os podres não poderão ser ofuscados por fotos em família e frases bíblicas. Como costumo dizer, a bíblia sempre terá um versículo para autoabsolvição dos conservadores ou a condenação de quem lhes for conveniente exterminar. Para finalizar, farei uso da mesma prática:

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: bonitos por fora, mas por dentro estão cheios de ossos e de todo tipo de podridão.” Mateus 23,27

Compartilhe: