
José Mourinho disse que Vini Jr. estragou o jogo ao comemorar seu gol dançando diante da torcida do Benfica. Logo ele, o técnico português, hoje no Benfica, que ficou famoso por comemorações extremamente efusivas em provocação aos torcedores rivais. De todos os envolvidos naquela partida válida pelos playoffs de oitavas de final da Champions League, entre Benfica e Real Madrid, Mourinho era, talvez, quem menos tivesse o direito de abrir a boca para criticar a postura do atacante brasileiro.
Se tivesse o mínimo de dignidade, teria ficado calado. A vitória do Real fora de casa sobre o time português terminou ofuscada por mais um lamentável episódio de racismo no futebol. E diante de um caso de racismo, qualquer pessoa que não se posiciona em defesa da vítima torna-se, automaticamente, também algoz. Esportivamente, Mourinho poderia ter se complicado ao acusar um atleta de seu próprio time, mesmo que fosse o mais correto a se fazer, humanamente falando. Porém, impossibilitado, ao menos terminasse calado.
Na luta contra o racismo, não basta não ser racista. É preciso ser antirracista. De tanto que ouvimos esse mote, parece chavão, mas se fosse batido, não teríamos ainda tantos casos de racismo pelo mundo. Na partida disputada na terça-feira de Carnaval (17), onde Vini Jr. mais uma vez foi vítima, um importante aliado juntou-se à luta contra o racismo e em defesa do brasileiro, o craque francês Mbappé.
Não é a primeira vez que Mbappé se posiciona politicamente diante de temas sensíveis e à sociedade. Ele não é qualquer um. No Real Madrid é o atacante de referência. Titular da Seleção da França e um dos melhores centroavantes do mundo em atividade, Mbappé não precisa falar para aparecer, como muitos jogadores fazem por motivos menos nobres. Em 2024, diante do avanço da extrema direita no Parlamento Europeu, Mbappé usou sua posição de capitão da seleção nacional para tratar da delicada conjuntura política no país, às vésperas das eleições legislativas. Para quem já tem seu nome entre os maiores do mundo, esse tipo de atitude diferencia os gigantes dos imortais, e é nesse caminho que Mbappé trilha sua história, ao contrário de outros gigantes no âmbito esportivo, como Neymar e José Mourinho, que têm méritos inquestionáveis, mas como homens fazem questão de apequenar suas histórias.
Ainda que se discuta o estopim da crise no jogo, qualquer argumento que alivie o racismo praticado pelo argentino Prestianni contra Vini Jr. faz coro à atitude racista. O que o jogador brasileiro fez não foi tão somente dançar, ainda que por tudo o que ele já enfrentou contra europeus racistas e argentinos que se sentem como europeus, sua dança tem se tornado também uma forma de resistência. Então Vini Jr. foi mais uma vez, à sua maneira, dizer ao mundo que ele estava ali, como diz Cristiano Ronaldo e ninguém o critica, já que ele é branco e europeu.
Vini Jr. foi sim provocar a torcida adversária, e isso é absolutamente saudável no futebol. Quando tiramos a provocação, parte do espetáculo se perde. O futebol não precisa tornar-se um esporte protocolar para que racistas consigam controlar sua índole doentia. Prova maior de que é possível provocar de forma sadia deu Otamendi, outro argentino do Benfica, também contra Vini Jr, exibindo sua tatuagem que marca o título da Argentina conquistado na última Copa do Mundo Fifa, bem na linha “eu tenho, você, não”.
Na luta antirracista, Mbappé entra como aliado de peso, dizendo para o mundo o que nós, compatriotas já dizemos: “Baila, Vini!”.
Texto publicado originalmente na edição de 20.02.2026 do jornal A União.