Jornalista, fotógrafo e consultor. Mestre em Computação, Comunicação e Artes pela UFPB. Escreve desde poemas a ensaios sobre política. É editor no Termômetro da Política e autor do livro infantil "O burrinho e a troca dos brinquedos". Twitter: @gesteira.
Jornalista, fotógrafo e consultor. Mestre em Computação, Comunicação e Artes pela UFPB. Escreve desde poemas a ensaios sobre política. É editor no Termômetro da Política e autor do livro infantil "O burrinho e a troca dos brinquedos". Twitter: @gesteira.
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Tatiquês
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Técnico Roger Machado
Técnico Roger Machado (Foto: Reprodução)

A entrevista coletiva concedida pelo técnico Roger Machado após a derrota em casa do São Paulo para o Palmeiras só não foi mais desastrosa do que a atuação do time em campo. Mas, a despeito da lógica, prevaleceu durante a semana a forma como o treinador apresentou suas justificativas. Quem sentia saudades do ‘tatiquês’ de Tite no início de sua carreira pôde reviver a experiência com Roger, seu aluno, em pleno domínio de linguagem inacessível e ainda mais complexa que a do outrora professor. 

“Regra do gatilho da bola rodada para trás, subida de pressão, pouca pressão na bola, a bola inverteu de corredor, perna contrária, pé contrário e gatilho de pressão de bola para trás” foram alguns dos termos utilizados pelo treinador do São Paulo na coletiva. 

Imediatamente virou piada nas redes sociais digitais, ou meme, na linguagem atual.

E este é o ponto que falta ao técnico Roger Machado: linguagem. Como bem disse o jornalista André Rizek ao longo da semana, o problema de Roger foi de comunicação. Diante da imprensa especializada e dos blogueiros de plantão, o treinador elevou tanto a erudição de sua fala a ponto de tornar-se um personagem de difícil compreensão. Tanto que o portal ge publicou um ‘dicionário’ só para traduzir o dialeto do professor e assim viabilizar o entendimento do torcedor. 

É possível comunicar qualquer coisa de forma simples. O físico Richard Feynmann ficou mundialmente conhecido por conta de suas aulas. Ele conseguia atrair centenas de alunos, mesmo aqueles que não eram estudantes de Física, simplesmente porque possuía a habilidade de passar uma informação extremamente complexa de forma que qualquer pessoa pudesse compreender. 

Se Roger vivesse em outro tempo, quando as coletivas de imprensa eram frequentadas apenas pela imprensa, esses profissionais de comunicação teriam a função de mediar a informação dada por ele até o torcedor. Hoje em dia é tudo direto, instantâneo, ao vivo e comentado não apenas por profissionais, mas também por influenciadores que nem sempre têm compromisso com a informação. Toda fala pode virar um corte, chegando ao espectador muitas vezes sem contexto algum, em conteúdos picotados e exibidos à exaustão, em todas as redes e por muito mais tempo do que a pauta renderia nas mídias tradicionais. 

Ainda que fosse naquele ambiente hipotético e restrito, seria mais elegante da parte de Roger falar de forma simples. A arrogância intelectual não é exclusiva dos técnicos de futebol, está presente nas artes, no meio acadêmico, no âmbito jurídico e no jornalismo. Sempre que um profissional opta por termos difíceis com o objetivo de falar bonito diante de seus pares em vez de alcançar o maior número possível de pessoas, ele acaba se isolando nesta casta que funciona como um amplificador de desigualdades. “Eu detenho mais informação, sou mais inteligente”.

Roger não é o primeiro a fazer esse tipo de prática. Talvez o faça justamente por ter sido tão segregado e questionado por sua competência que criou uma armadura forjada na língua como sistema de autodefesa. Há tempo para que ele prove seu trabalho como técnico no São Paulo. E para o bem de todos, que aplique suas convicções como bem quiser, mas largue fora o tatiquês.

Texto publicado originalmente na edição de 27.03.2026 do Jornal A União.

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futebol