
Los Hermanos foi uma banda que conheci por meio da minha irmã Henriqueta. Ela, no auge da adolescência. Eu, pequena. O som era gostosinho de ouvir. O início da música “O vento” anunciava: “o estrago que faz a vida é curta pra ver”. Naquela época eu não tinha a dimensão dos estragos que poderiam acontecer na minha vida, tampouco que a vida poderia ser curta. Talvez nunca tenha, na verdade.
As pernas esticaram. Na escola, os amigos também ouviam, mandavam as canções para fulaninha da sala tal que era bonita. Mais velha, me apaixonei e a trilha sonora acompanhou o momento. Aos poucos, as letras passaram a fazer cada vez mais sentido. Nas viagens, Los Hermanos também estava presente: “o vento vai dizer lento o que virá”, e vinha uma pousada em Carapibus, em Pipa com minha mãe, Bia e Mabel.
Mais tarde, quando foi época de curtir os shows da banda, as apresentações se tornaram cada vez mais escassas. Um show ali, outro acolá. Mesmo assim, consegui ir a dois, um em Recife e outro em João Pessoa. Eram filas ‘quilométricas’, ainda que tenhamos chegado cedo no dia do show, mas a fé de ficar o mais próximo possível da grade nos guiava à persistência.
Hoje, a tendência entre quem tenta parecer desesperadamente jovem, os velhos de verdade que se tornaram cafonas, é decretar que Los Hermanos é ruim, péssimo, sinal de red flag, falha de caráter. Banda de esquerdomacho. Aos poucos, assisto a quem gostava, deixar de ouvir.
Nesses dias, uma amiga disse que possuía um traço tóxico. Sabe qual era? Gostar de Los Hermanos. Sim, quase que uma culpa em tom de brincadeira. Insisti que ela não cedesse: “não podemos cair no papinho desses internautas amargurados, amiga”, disse eu.
Não é o caso dela, mas em geral percebo que há uma vergonha internalizada do período da adolescência em algumas pessoas. O adulto performático de 2026 quer tanto o controle das narrativas que, se pudesse, mudaria o passado. Não é como se houvesse arrependimento de uma escolha que mudou todo o rumo da vida. É a decisão de passar a odiar uma banda que fala de amor, amizade e melancolia porque virou trend de rede social. Uma necessidade de pertencimento que ultrapassa o próprio gosto e vira algoritmo.
Eu penso que aqueles que se seguram em uma falsa aura perdem a chance de se embalar por uma das melhores bandas de barbudos que este país já viu. Eu lhes digo: estão caducando.
Nós, os bregas, vamos resistir bravamente ao tempo. Estou no clubinho de fãs que desejam, quase em um ato de egoísmo carinhoso, que Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Bruno Medina e Rodrigo Barba precisem de um pé-de-meia e retornem aos palcos.
“Se tem que durar
Vem renascido o amor
Bento de lágrimas”