
Quem pensa que, neste momento, meus únicos adversários são Cícero, Lucas e Efraim está olhando a política paraibana com a distração de quem assiste incêndio abanando o rosto com panfleto de campanha.
Não. Eles são adversários, claro. Uns mais previsíveis, outros mais plastificados, outros ainda embalados em sobrenome, marketing e pose de modernidade com cheiro de naftalina. Mas meu maior inimigo, hoje, atende por outro nome. Um nome mais temido do que muito coronel de gabinete, mais eficiente que muito cabo eleitoral e mais persistente do que promessa de obra em ano pré-eleitoral. O nome dele é Doutor Cluso.
Ou, para os mais íntimos do balcão forense e do cafezinho requentado dos fóruns, “Doutor Concluso para decisão”. Na política, há quem atrapalhe o povo com voto. No Judiciário, às vezes, há quem atrapalhe com silêncio.
Na condição de advogado popular, faço o que sempre fiz: cutuco o poder onde ele acha que é intocável. Levo ao Judiciário os maus feitos praticados contra o povo brasileiro e paraibano, na esperança, essa teimosa, de que a toga, em algum momento, recorde que foi feita para servir à Constituição e não ao calendário da conveniência.
Nessa estrada, não foram poucas as batalhas. Houve ação contra fake news bolsonarista, com repercussão pública sobre a retirada de outdoors enganosos na Paraíba, houve atuação contra irregularidades da gestão Bruno Cunha Lima envolvendo concursados e comissionados, houve também a ofensiva jurídica contra o aumento do salário do prefeito de Campina Grande, que terminou com declaração de inconstitucionalidade pelo Tribunal de Justiça.
E houve, para deleite da democracia, a rejeição da queixa-crime movida por Hugo Motta contra o sindicalista José de Araújo, num caso que transformou outdoor crítico em caso de polícia e terminou transformando autoritarismo em vexame, entre outros casos de grande repercussão.
Tudo isso mostra uma coisa simples: quando o poder é incomodado, ele grita, quando é contrariado, ele se vitimiza e quando perde, finge que foi mal compreendido. Mas há um estágio ainda mais perverso do que o poder derrotado: é o poder protegido pela lentidão.
Aí entra ele: Dr. Cluso. Esse personagem não dá entrevista, não pede voto, não cola adesivo em carro, não abraça criancinha em feira, não fala em nome de Deus no palanque e nem promete futuro radiante em vídeo patrocinado. Não precisa, pois ele age no silêncio. É um inimigo de gabinete, um sabotador de expectativas, um burocrata metafísico. Uma entidade que mora entre a movimentação processual e a caneta que nunca desce.
No mundo jurídico, quando um processo está “concluso para decisão”, isso significa que ele já percorreu, em tese, o caminho necessário e agora espera o pronunciamento da autoridade responsável. Traduzindo para o português do povo: o denunciante já falou, a defesa já falou, o Ministério Público já falou, todo mundo já falou e agora falta apenas quem pode decidir decidir que vai decidir.
É aí que mora meu maior inimigo. Porque veja só, no caso de Pâmela Bório, a denúncia no âmbito do 8 de janeiro foi recebida, a ação penal teve origem em notícia-crime apresentada pelo PSOL da Paraíba assinada por mim, e a própria imprensa registrou que a PGR pediu condenação.
Também houve notícia sobre ausência em audiência e prazo para alegações finais. Ou seja: não estamos falando de fantasia, de fofoca de grupo de WhatsApp ou de ilusão de oposicionista ansioso. Estamos falando de processo real, robusto, grave, envolvendo ataque ao Estado Democrático de Direito. E, no entanto, entre a gravidade dos fatos e a efetividade da resposta estatal, lá está ele, sentado na porta do gabinete, cruzando as pernas: Dr. Cluso. O processo espera decisão do Ministro Alexandre de Moraes para mandar Pâmela para a cadeia, está “com Cluso” desde junho de 2025.
No caso de Hugo Motta, a coisa é quase didática. Primeiro, ele usou o peso do cargo e o verniz institucional para tentar esmagar um sindicalista que ousou criticá-lo por outdoor. A Justiça Federal rejeitou a queixa-crime. Depois, levamos a notícia-crime ao Supremo para apurar o uso da advocacia da Câmara em favor privado.
E o que se noticia publicamente? Que o caso está parado, esperando providência, aguardando a marcha solene da institucionalidade que, quando quer correr atrás de estudante, militante, sem terra ou professor, costuma descobrir súbita vocação para a velocidade. O processo está “com Cluso” para decisão da Ministra Cármen Lúcia desde dezembro de 2025. A senhora ministra não tem muito o que fazer: basta mandar a representação para a Procuradoria-Geral da República, que vai decidir se processa Motta por peculato-desvio ou não.
Já na representação contra Flávio Bolsonaro e o vereador Fábio Lopes, o PSOL da Paraíba acionou o TSE por suposta propaganda antecipada, com relatoria da ministra Estela Aranha. O fato público é esse: a ação foi protocolada em fevereiro de 2026 e caiu no gabinete competente. Os adesivos já correram mais do que a jurisdição. O marketing saiu de casa, abasteceu, colou no vidro traseiro, deu entrevista, tirou selfie e voltou antes da primeira resposta efetiva do Estado. O processo está “com Cluso” desde 20 de fevereiro de 2026, enquanto os representados seguem fazendo campanha antecipada.
Porque, no fim das contas, meus adversários eleitorais eu conheço. Sei onde discursam, o que defendem, a quem servem, quais oligarquias frequentam e qual tipo de Paraíba desejam preservar: uma Paraíba dócil para os de cima e exausta para os de baixo.
Mas Dr. Cluso é pior, ele apenas espera. E, enquanto espera, vai prestando um serviço silencioso aos muito poderosos deste país. Porque, em certas ocasiões, não julgar logo já é um modo de julgar a favor de alguém. Não decidir em tempo razoável também produz efeito político. A demora, às vezes, é prima da absolvição social. O despacho tardio é uma forma elegante de dizer ao poderoso: “fique tranquilo, o escândalo envelhece antes da resposta”.
É por isso que digo, sem exagero e com a ironia amarga de quem conhece o caminho das petições: meu maior inimigo não usa gravata colorida em debate televisivo nem posa de gestor eficiente em propaganda oficial. Meu maior inimigo é esse doutor invisível que vive empilhando urgências em nome da calma, adiando providências em nome da prudência e naturalizando a morosidade como se a democracia pudesse funcionar no ritmo de um elevador quebrado.
Dr. Cluso tem sido o patrono informal da impunidade intermitente, o santo padroeiro da gaveta, o clínico-geral do processo eternamente maduro. É o sujeito que olha para a ação pronta e diz: “volte amanhã”, mesmo quando o amanhã já dura meses.
Por isso, que ninguém se engane: Cícero, Lucas, Efraim e companhia têm, sim, seus projetos e seus pactos. Mas meu maior inimigo, hoje, continua sendo esse personagem togado-sem-rosto, esse vilão sem palanque, esse artista da demora.
Contra adversário político a gente luta no debate, na rua, no voto e na denúncia. Agora, contra Dr. Cluso? Contra ele a gente luta com paciência, petição, insistência e um estoque moral de ironia, que é o último direito que ainda não conseguiram deixar concluso.