
Mais de 80% das famílias brasileiras estão endividadas. O número revelado nesta semana pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) representa o maior nível da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic). O que parece ser apenas um problema econômico torna-se cada vez mais explícito como questão social e até de saúde pública. O endividamento das famílias está inserido em todas as as camadas da sociedade e deve ser enfrentado com a devida seriedade. Também nesta semana veio à tona um caso no esporte, do zagueiro equatoriano Arboleda, do São Paulo, que abandonou o ambiente de trabalho sem qualquer comunicação com o clube. Não é a primeira vez que o atleta faz isso, e antes que o abandono de Arboleda seja resumido a um simples desentendimento com o novo comando técnico ou membros da diretoria, cabe adentrar no sufocante mal causado pelo endividamento, que atinge brasileiros ricos, pobres, e até estrangeiros.
Parece fácil fugir das dívidas quando se tem um salário mensal de R$ 850 mil, como era o de Arboleda. Mas endividamento não diz respeito apenas a uma questão matemática ou de organização das finanças pessoais. Quem entra nesse buraco precisa ser amparado como um dependente químico, uma pessoa viciada em práticas ilícitas, como agiotagem, ou mesmo em outras regularizadas no Brasil, a exemplo das casas de apostas esportivas, as chamadas bets.
Não se sabe ao certo qual foi o problema envolvendo Arboleda, se ele tinha vícios, se jogava. No entanto, parte de suas dívidas foram expostas ao público pela imprensa. Em outro momento, na sua última renovação, o clube conseguiu ajudar o atleta com aumento salarial somado à resolução de uma dívida de R$ 5 milhões com agiotas. Desta vez, parece que o buraco foi muito maior. Cobranças judiciais, bloqueio de bens.. Há quem fale até em ameaças envolvendo execução das dívidas.
Claro que não se deve colocar no mesmo patamar o endividamento do trabalhador que ganha um salário mínimo e entra no rotativo do cartão de crédito por causa de uma emergência, para comprar um remédio porque o filho adoeceu e o orçamento é tão apertado que um passo fora do previsto faz tudo desandar. Os números do endividamento no Brasil englobam todos os casos, mas o endividamento como questão de saúde tem agravantes causados por fatores psicológicos que desencadeiam problemas maiores. Um pai que não consegue resolver suas dívidas carrega a família inteira para dentro do problema. Em alguns casos, perde a vida. O número de suicídios nos países sempre está atrelado a fatores econômicos e cresce em momentos de crise.
As dívidas não surgiram com as bets, são problema antigo, mas essa modalidade que une vício e dívida sem precisar sair de casa, acessível e na palma da mão, tem agravado a situação. Um estudo realizado entre os meses de dezembro de 2011 e dezembro de 2025 pelo Ibevar, em parceria com a FIA Business School, mostra que as bets têm peso maior no endividamento das famílias do que a soma dos outros dois principais segmentos. Reportagem publicada pelo jornal Extra revela que o coeficiente associado às apostas (0,2255) supera o impacto do crédito sobre a renda (0,0440) e dos juros ao consumidor (0,0709).
Por mais que seja apontado como atleta que adotou conduta pouco profissional, Arboleda também é vítima. Quando uma pessoa sucumbe ao endividamento, todos saem perdendo.
Texto publicado originalmente na edição de 10.04.2026 do jornal A União.