Anderson Pires é formado em Comunicação Social – Jornalismo pela UFPB e publicitário.
Anderson Pires é formado em Comunicação Social – Jornalismo pela UFPB e publicitário.
Como na Ditadura: vamos esconder os mortos.
Compartilhe:
Foto: Marcos Corrêa/PR

A crise provocada pelo coronavírus tem evidenciado a incapacidade dos militares para gerir qualquer situação que demande análise e não possa ser resolvida no grito. Se antes já tínhamos o Capitão-Presidente dando exemplos diversos de demência, agora chegamos na parte que torna explícita o seu caráter.

Desde de quando a pandemia foi identificada no Brasil, o Presidente da República tem sido o principal sabotador de qualquer trabalho para conter a propagação e diminuição das mortes no país. Inicialmente, fez um discurso patético onde afirmava que a COVID-19 era apenas uma gripezinha e que não teria motivo para que pessoas saudáveis, jovens ou com histórico de atleta ficassem preocupadas.

Assinou um atestado de irresponsabilidade e incentivou a população a sair às ruas, sem ponderar que, por menor que seja o número de infectados com sintomas graves, o sistema de saúde não tem capacidade para suportar simultaneamente um número grande de pacientes que necessitem de internação em UTIs. Essa realidade não é exclusividade do Brasil. Em todo mundo a corrida pelo isolamento social e adequação da capacidade de atendimento foi verificada. Quem fez melhor o dever de casa, está saindo com menos sequelas.

Contraditoriamente, Bolsonaro resolveu negar a ciência e passou a intensificar sua cruzada genocida, propagando inverdades, defendendo o uso de medicamentos sem qualquer evidência científica e interferindo na gestão do Ministério da Saúde. Essa postura gerou conflitos com estados, prefeituras e dois ministros da saúde pediram demissão do cargo, por não aceitarem defender os absurdos que o presidente gostaria.

Como de costume, sempre que alguém manifesta ter mais de dois neurônios funcionando e demonstre resistência ao autoritarismo desqualificado do Presidente, ele recorre aos quartéis para ocupar postos no Governo. Na Saúde não foi diferente. Escalou um oficial do círculo de amigos e delegou que montasse uma equipe que não tivesse qualquer possibilidade de questionar suas ordens, mesmo que isso representasse prejuízo de vidas e agravamento da crise. O importante é que o comando do Capitão esteja acima de qualquer outra coisa.

Dessa forma, depois de quase um mês, o Ministério da Saúde está sem ministro e tem um militar no seu comando como interino, fazendo o serviço que os outros se opuseram. Caso alguém tenha no exército alguma referência ética e de capacidade de gestão, basta lembrar do buraco que deixaram o Brasil após 21 anos de ditadura e os absurdos praticados com dinheiro público, sem que nunca fosse apurado.

A situação chegou a um nível tão grave que se antes o Presidente Bolsonaro recusava implantar medidas que salvassem vidas, agora estabeleceu como forma de minimizar o flagelo que espalhou, a eliminação de mortos.

Parece algo inusitado, mas essa prática é antiga por parte dos militares. Nos anos de chumbo muitas pessoas foram mortas em decorrência da tortura e do seu extermínio praticados pela ditadura. A forma que os militares encontraram para negar a existência do problema era sumir com os mortos. Na modelo autoritário que governaram o Brasil, se não havia cadáver, logo não poderia ter existido tortura, muito menos mortes.

A falta de senso humanitário e de responsabilidade com a gestão pública por partes dos militares, parece ser uma característica que não foi corrigida, mesmo após 35 anos do fim da ditadura. Não me espanta que no Governo de Jair Bolsonaro, existam membros do primeiro escalão que ainda teimam em negar os crimes praticados entre 1964 e 1985, como também, tentem qualificar o golpe como um movimento revolucionário para conter o avanço comunista.

O que de mais evidente pôde-se extrair desses representantes do militarismo brasileiro é a falta de caráter, principalmente, quando está em questão qualquer ação política que represente a proteção a vida humana.

No passado, o Exército Brasileiro tinha uma formação pautada em valores humanitários. Forjou líderes como Luiz Carlos Prestes. Exatamente pelo que produziu de melhor, foi submetido a mudanças drásticas. Os responsáveis pelo extermínio da Coluna Prestes passaram a ditar a formação militar brasileira e eliminaram qualquer viés sócio-filosófico. Para que militar pensar? Para que humanismo? Estão aqui para cumprir ordens, as ordens do Capitão.

Essa geração produziu os piores frutos. Foi dela que derivou a ditadura militar no Brasil e que, até hoje, espalha resquícios, como o grupo ao qual Bolsonaro faz parte. Os mesmos que criaram falsos inimigos para justificar o Golpe de 1964, estão hoje a frente do Poder Executivo. O que sobrou de uma aberração histórica é quem dita os rumos do país.

Não podemos esperar nada de bom de quem foi parido nos quartéis da ditadura. Um conjunto de negacionistas que acreditam poder desrespeitar o ser humano sem qualquer pudor. Fraudam dados, criam conflitos e negam a ciência. Esperar desses sensibilidade é muita generosidade. Agora, querem reeditar o que faziam durante a ditadura: esconder mortos, para que mais gente continue morrendo.

A cena que o Brasil vive hoje é de uma tristeza sem tamanho. Somos motivo de vergonha em todo mundo. Certamente, teremos mais dificuldades que qualquer outro país para nos recuperamos no pós pandemia. Além de um Governo desqualificado, temos uma elite atrasada que lhe segue como espelho.

Gente capaz de aplaudir cenas patéticas, como a de jumento montado num cavalo. Um grupo de pessoas que propaga mentiras, na crença de produzir um mundo ideal particular. Alimentam Bolsonaro com seus piores preconceitos. Tem de tudo, empresários sonegadores como Hang, ou um Wizard que entrou e saiu de cena como um mago (foi cuidar do seu Mundo Verde), mas, também, uma classe média que se comporta como capitães do mato e não percebe que os mortos que querem esconder são os seus.

Compartilhe: