Anderson Pires é formado em Comunicação Social – Jornalismo pela UFPB e publicitário.
Anderson Pires é formado em Comunicação Social – Jornalismo pela UFPB e publicitário.
O petróleo é nosso, o lucro dos outros
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Foto: Fotos Públicas FP

A Petrobras foi sem dúvida a maior vítima do lavajatismo. Sob a farsa de que o objetivo seria combater a corrupção que dilapidava o patrimônio nacional, tivemos uma verdadeira manobra para redirecionar o comando e estratégias da empresa, com intuito de ser alinhada aos interesses do mercado internacional.

Da mesma forma que toda a indústria de base brasileira foi destruída pelo lavajatismo, a Petrobras deixou de ser uma empresa destinada aos interesses dos brasileiros para servir a especuladores, que rentabilizam no mercado de valores.

Antes que alguém diga que a Lava Jato foi uma operação necessária, decorrente da corrupção que assola o país, lembro que existe diferença grande entre cessar a ação de gestores corruptos e comprometer empresas que são estratégicas para o desenvolvimento do país. Os atores da Lava Jato, notadamente o procurador Dalagnol e o ex-juiz Sérgio Moro, tinham como meta redefinir os caminhos políticos e econômicos do Brasil. A quebra das maiores empresas brasileiras gerou uma conta que é muitas vezes maior que qualquer valor recuperado pela operação. Não bastasse isso, usaram de métodos ilegais para manipular processos, interferir em eleições e promover o entreguismo do patrimônio público ao mercado.

Mas antes mesmo da Lava Jato, a Petrobras já era alvo do mercado, que via na gestão petista um entrave para conter os ganhos especulativos na medida em que os preços dos combustíveis no Brasil não acompanhavam a alta do dólar. O discurso do mercado que isso geraria prejuízos para a empresa foi absorvido por muitos. Porém, a história não é tão simples. Afinal, a produção de petróleo é uma área estratégica, que não pode ficar a mercê dos movimentos especulativos do dólar. Na medida que o país atingiu a autossuficiência na produção de petróleo, passou a ter condições de se proteger desses movimentos e resguardar a população das altas, que provocam consequente inflação de forma generalizada.

Qual a justificativa de se investir tanto tempo e dinheiro público em pesquisa, prospecção, extração e produção de petróleo e derivados, para no final os ganhos serem do mercado e não da população (ou da nação como alguns preferem)? Toda trajetória de mais de 60 anos que levou a Petrobras a liderar a exploração em águas profundas, a descobrir reservas capazes de darem segurança ao país por décadas, terá como destino atender aos especuladores?

Não existe justificativa para que paguemos pelo nosso petróleo o valor que convém aos investidores da Bolsa de Valores, que continuarão a produzir movimentos sucessivos de alta do dólar. Afinal, seus ganhos estão indexados ao valor da moeda e não ao custo real da mercadoria. Quando se estabelece que o preço do petróleo é o valor que o mercado atribui, é desconsiderado que as condições para produção são distintas, que a existência de reservas e autonomia servem exatamente para não passarmos a ser uma sucursal dos interesses internacionais.

Mais grave ainda, quando se deixa de lado o motivo real que é a especulação, o foco de ataque passa a ser os impostos pagos sob o consumo de combustíveis. A única parcela destinada ao público no processo de exploração do petróleo e consumo de combustíveis são os impostos gerados. Na hora que o mercado mira para eles, estabelece que vale tudo para manter os ganhos crescentes. Se os impostos são um impedimento, que sejam reduzidos. Pouco importa se isso representa redução de receitas que seriam destinadas a serviços públicos. Uma coisa é certa, tudo que possa ser retirado do Brasil para que os lucros especulativos não cessem tem apoio do mercado e do Governo Federal, que está a serviço dele.

Nessa perspectiva, a Lava Jato serviu para dizer que o Brasil não tinha legitimidade para gerir a Petrobras e os interesses estratégicos que estão atrelados à empresa. Na hora que se imputou prejuízos à empresa em decorrência da corrupção, foi feito uso do discurso moralista, como forma de esconder todo jogo que o mercado tentava impor, mas que não conseguia estabelecer por vias democráticas. Foi preciso a destituição de uma Presidente da República e a pavimentação de uma conjuntura que permitisse a ascensão de um presidente sem qualquer compromisso com os interesses do país e do seu povo, que entregou a condução da economia e dos setores estratégicos a especuladores.

O patriotismo dos militares sempre foi algo muito relativo. Não é de hoje que se comportaram como auxiliares dos interesses externos. No caso da Petrobras, durante o regime militar, por diversas vezes foram feitas concessões a empresas americanas e europeias, sempre com o intuito de serem favorecidas às nossas custas. Ainda no setor energético, não tem como esquecer das negociações vergonhosas envolvendo as Usinas Nucleares de Angra dos Reis.

Com um histórico desses, não se pode estranhar que Bolsonaro transforme a Petrobras num instrumento a serviço de especuladores nacionais e internacionais e, mantendo a tradição de entreguismo dos militares, condene a população a pagar a conta dos lucros absurdos que o mercado obtém.

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