Jornalista, fotógrafo e consultor. Escreve desde poemas de amor a ensaios sobre política. É editor no Termômetro da Política e autor de Emagreça bebendo cerveja. Twitter: @gesteira.
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Onde eu fui amarrar meu bode
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Honda em aquecimento para a partida contra o Sport, na 15ª rodada do Brasileirão (Foto: Vítor Silva/BFR)

Uma expressão da língua portuguesa falada no Brasil que deveria ser ensinada a todo profissional de futebol que tem espaço na Europa e opta por apostar em algum projeto de clube brasileiro é “onde eu fui amarrar meu bode”.

Mais que brasileira, é particularmente nordestina. Belíssima, diga-se, pois faz referência ao que o animal representa para o povo. O bode, para o nordestino, é companhia, é apego, é lar, também, pois remete à origem, e na visão mais pragmática, porém não excludente, é patrimônio. No caso linguístico, identificado assim, com artigo definido, “o bode” é único. Portanto, é tudo o que aquele cidadão tem na vida. Não é um bode dentre tantos. É o que lhe resta, e de onde tudo ele tirará. Por isso, se mal amarrado, a perda é grande.

Após o prejuízo, cabem outras expressões, como quando se dá com “os burros n’água”, ou quando “a vaca vai pro brejo”. Estas duas são usadas no Brasil inteiro. No Nordeste, se diz ainda que não adianta “chorar pelo leite derramado”. Findo o desastre, cabem muitas sentenças. Mas nenhuma tem o impacto e a beleza daquela que faz referência à amarração do bode, pois ela não surge após a tragédia, diante dos fatos postos, sob a luz de todas as informações, como uma análise do passado que é desgraçado, porém irremediável. “Onde eu fui amarrar meu bode” é insubstituível porque se aplica unicamente ao momento da constatação que fora feita uma má escolha. Momento este que muitas vezes antecede a catástrofe. Então, quando se instala o semblante da expressão, aquela inconfundível cara de consternação, está a percepção de que não há o que fazer, apenas viver e aguardar as perdas.

Esta deve ter sido a sensação de Keisuke Honda quando se deu conta do que de fato era o Botafogo. Lamento profundamente se diante de tantas expressões idiomáticas aprendidas, ninguém tenha lhe ensinado a aplicar “onde fui amarrar meu bode”. Um desperdício. Deve ter vindo ao Brasil com a promessa de um grande projeto. Devem ter lhe mostrado o exemplo de Seedorf no clube, e ainda a possibilidade de se tornar ídolo pelo mesmo time que consagrou Garrincha, um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos.

Aposto o meu bode como da mesma forma pensou o espanhol Juanfran, lateral do São Paulo, ao se dar conta da barca furada em que estava. Um jogador de alto nível, comprometido com o trabalho, acostumado a disputar títulos, se viu num clube que oscila do vexame à expectativa de título nacional, e mergulha novamente em vexame, com jogadores que sequer se entregam em campo. Perder com entrega é diferente de perder na apatia.

Eles não são os únicos estrangeiros no futebol brasileiro. Em comum, os dois tinham a experiência em grandes clubes, passagens pela Liga dos Campeões da Europa, e mercado disponível ainda em alto nível no futebol europeu. Decidiram vir para o Brasil. Se depararam com promessas não cumpridas, projetos incompletos, falta de profissionalismo em diversos aspectos.

Há outros casos de estrangeiros bem sucedidos por aqui. Jorge Jesus se deu bem no Flamengo, mas assim que pôde pegou o caminho de volta. Abel Ferreira está em lua de mel com o Palmeiras. Não são âmbitos diferentes comparar jogadores e técnicos, pois há desastres também para treinadores que foram importados e pouco respeitados pelo mercado nacional. Aguirre é um exemplo. Agora que contratar de fora está na moda, me pergunto quem, em sã consciência e com bom espaço no mercado europeu toparia viver a incerteza e a instabilidade do futebol brasileiro.

Texto publicado na edição impressa de 05.02.2021 do Jornal A União

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