Anderson Pires é formado em Comunicação Social – Jornalismo pela UFPB e publicitário.
Anderson Pires é formado em Comunicação Social – Jornalismo pela UFPB e publicitário.
Para não reviver o passado
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Sexo, drogas e rock ‘n roll deram lugar a abstinência, cigarro eletrônico e sofrência. Essa comparação diz muito sobre o que o Brasil se transformou. Em qual curva nos perdemos? Quais acordes deixaram de ser tocados e deram espaço para uma juventude conformada, que exalta uma tal sofrência permeada de frases banais e desprovida de utopia.

Esperar uma atitude rock ‘n roll seria pedir demais.  “Transformar o tédio em melodia”, uma contradição. O espírito contestador que embalou o fim dos anos setenta e quase toda década de oitenta foi diluído com doses progressivas de conservadorismo. A irreverência que contestava a força das armas, através da sutileza dos versos da MPB e do Rock Brasileiro, foi dragada pela obviedade, de um “Quem eu quero não me quer”. Talvez essa força estranha tenha sido responsável pela ascensão de líderes que refletem a decadência sócio-político-cultural em que nos encontramos.

O Brasil precisa ser revisitado. A poesia não pode ser um exercício de resgate da dor, mas de expansão de bons sentimentos. “Quem tem um sonho não dança”, a falta desse sonho idealizado está custando muito caro. Quantos Cazuzas e Chicos hoje vivem calados, sufocados por uma quase total falta de empatia poética? Recuso-me a aceitar que a irreverência que produziu tanta contestação agora padece, como se estivéssemos numa abstinência criativa, que impede de alimentar seu povo do espírito libertário.

Acabei de assistir ao documentário sobre O Barão Vermelho e talvez nunca tenha me dado conta de como essa banda teve um papel importante na quebra de paradigmas, na resistência ao rescaldo autoritário que vivemos por décadas. “Pro dia nascer feliz” poderia ter sido dito em diversas ocasiões, mas nunca foi tão apropriado, revolucionário. A liberdade que Cazuza e outros que construíram essa geração tinha algo tão forte que era mais sentido que entendido. Eu mesmo nunca tinha pensado, até escutar Frejat: “O Brasil não podia negar que gostava dele (O Cazuza). Ele mudou a cara da AIDS no Brasil”.

A força disso mostra a capacidade transformadora da arte. Rompe preconceitos, abre uma cunha para mostrar que tem gente dentro da carcaça. Faz ver com crueza e profundidade capazes de promover empatia, até por alguém que muitos prefeririam negar a existência. 

Precisamos ressuscitar. Recuperar a alma de um país que conseguiu contestar a ordem, com a leveza da poesia e a habilidade de quem nasceu com drible nos genes e nem a censura conseguiu barrar. O Brasil está cada dia mais triste. Cada vez mais contido, sofrido.

“A emoção acabou, que coincidência é o amor.” Esse Brasil carrancudo não nos representa. Não chegamos na reta final. Existe bagagem para a gente redesenhar esse país. Temos arte para espantar tanto ranço. Quem tiver segredos, que conte. Não é hora de guardar emoções.

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