Luísa é graduada e mestra em Letras. Escreve e pesquisa a intersecção entre literatura e feminismo. luisagadelha[a]hotmail.com
Luísa é graduada e mestra em Letras. Escreve e pesquisa a intersecção entre literatura e feminismo. luisagadelha[a]hotmail.com
Poliamor literário: pela descolonização dos afetos livrescos
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(Foto: Luísa Gadelha)

No último sábado, em nossa Roda de conversas sobre Anna Karênina, de Tolstói, onde aprendi um bocado com meu amigo Astier Basílio – inclusive sobre as idiossincrasias do livro que se perderam na tradução para o português, como o contraste entre os verbos eleger (um governante) e escolher (um par amoroso), que no russo são o mesmo -, Astier acabou por nos perguntar se éramos monogâmicos nas nossas leituras. Com isso, ele queria saber se nos entregávamos a um amor literário por vez ou, tal qual os amantes mais errantes, nos dedicávamos ora a um, ora a outro amor.

Eu, espírito livre, contrária a qualquer tipo de grilhões, sempre rebelde e contestadora, por amor às causas perdidas, sou incontornavelmente monogâmica nos afetos. Essa é uma discussão longa e complexa que não cabe num textinho que se pretende corriqueiro, mas acredito que amar requer dedicação, doação e renovação e, nesse ponto, não consigo ser multitask.


Prefiro, portanto, exercer meu poliamor na literatura: considero que cada livro tem seu próprio ritmo, tempo de leitura, de digestão e de ruminação. Sou adepta da ficção para relaxar antes de dormir, da poesia com vinho, da não ficção com café, e de mais algo genérico aleatório para quebrar todos os climas. Meu peito não tem catedrais imensas, mas possui uma biblioteca ou, para tomar emprestada uma expressão de Bolaño, uma universidade desconhecida. Sempre caberá mais um livro.

E, ainda respondendo a Astier, elenco aqui os amantes do momento, pois além de poliamorosa, na literatura sou volúvel e, não raro, infiel: em primeiro lugar, a poesia de Roberto Bolaño, que tem me chacoalhado há quase um ano e que eu procuro degustar “devagar e urgentemente”. Eu nunca havia lido Bolaño, que é mais conhecido pela sua produção em prosa, mas seus poemas me levam a viajar por uma Barcelona boêmia, uma Cidade do México onírica, amores fugidios, ébrios, sensações de desamparo e desesperos profundos.

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Em segundo lugar, os contos de Lygia Fagundes Telles, porque li alguns na adolescência e sua partida recente me fez querer me aprofundar em sua obra. Lembro, até hoje, como Apenas um saxofone me impressionou durante o ensino médio: a força com que a narradora, já no fim da vida, rodeada de luxos, discorre sobre um amor de juventude despido de ganâncias, e feliz.

O terceiro amor é A sociedade de corte, do sociólogo Norbert Elias, livro recomendado por um professor de literatura francesa nos idos da graduação (uns 15 anos atrás) e que só agora tive vontade de pegar, porque me faz fantasiar com hábitos e modos de vida distintos dos nossos (e bem esplendorosos em sua ostentação), numa sociedade protocolar pautada por ritos e costumes, a do Rei-Sol Luís XIV.

Por fim, Alex no país dos números, de Alex Bellos, que me traz uma série de curiosidades matemáticas como aquela do povo Yupno, da Papua-Nova Guiné, que possui um sistema de contagem próprio que só vai até o número 33, porque conta todas as extremidades e penduricalhos do corpo humano (sim, me refiro aos dedos, nariz, orelhas, mamilos e o que mais vocês quiserem imaginar).

Essa diversidade de leituras, ao tempo que me diverte e entretém, também me emociona, por fazer perceber, sempre, que cada livro é um “infinito particular”. Raul já dizia que quem gosta de maçã irá gostar de todas, mas nem todas são iguais.

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