Anderson Pires é formado em Comunicação Social – Jornalismo pela UFPB e publicitário.
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“Só funciona em Cuba: segurança, educação e saúde”
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Só funciona em Cuba: : “a segurança, a educação e exatamente a saúde”. A frase vinda de um liberal como Ricardo Amorim é algo normal.
Foto: Consulado de Cuba em Milão

Certa vez, o economista e apresentador de TV Ricardo Amorim disse que Cuba só tinham três coisas que funcionavam: “a segurança, a educação e exatamente a saúde”. A frase vinda de um liberal que não enxerga o mundo pela ótica dos seres humanos, mas sim da capacidade de ganhos do mercado é algo normal.

Análises distorcidas fazem parte da trajetória de Ricardo Amorim, que vende palestras e conteúdos destinados a apresentarem receitas de como ter sucesso financeiro. Vale ressaltar que, assim como em toda atividade especulativa, vive da crendice e da projeção que consegue por fazer parte da maior empresa de comunicação brasileira.

A referência a Cuba tinha tom pejorativo. Para quem entende segurança, educação e saúde como mercadorias, pouco importa se a maioria não terá condições de comprar. Para esses, políticas públicas não são prioridade. Mas num momento como esse que vivemos, o que parecia irrelevante para os liberais defensores do Estado Mínimo, torna-se um valor imensurável. Afinal, enquanto os próceres de Wall Street morrem sem um sistema de saúde eficiente, Cuba apresenta um dos melhores resultados do planeta e gastando muito pouco.

A receita parece simples, mas não é. Promover saúde de qualidade e com alto grau de eficiência não é tarefa que apenas se compra. Apesar de não ter um sistema público universal de saúde, os Estados Unidos tem um gasto per capta dez vezes maior que Cuba e muitos indicadores piores, a exemplo de taxa de mortalidade infantil, imunização com relação a diversas doenças, como também, acesso da população a atenção básica.

É aí que está o grande diferencial da saúde na Ilha em relação a quase todo mundo. Quem tem pouco recursos precisa ter foco na prevenção, imunização e atendimento humanizado. Enquanto os Estados Unidos são os grandes responsáveis pela mercantilização da saúde, com ênfase na cronificação, exames e procedimentos de alto custo, reducionismo, desvalorização da clínica médica e elitização da profissão do médico, Cuba popularizou a medicina e mostrou ao mundo que é uma atividade eminentemente humana.

Em meio a pandemia do coronavírus, países com grandes economias perdiam as contas de infectados e mortos, ao mesmo tempo em que, Cuba, com a expertise em atenção básica que exporta para todo mundo, mirou no controle de assintomáticos e conseguiu conter a proliferação do vírus com muito sucesso. Dados do dia 3 de junho, mostram que o pico da doença aconteceu em 24 de abril, foram identificados pouco mais de dois mil casos e oitenta e três mortes, para uma população de mais de onze milhões de cubanos.

Mesmo sofrendo com o embargo econômico americano desde 1962, Cuba dá aula de gestão e políticas públicas. O país tem um IDH acima de 0,860, erradicou a desnutrição infantil e ainda se dá ao luxo de enviar médicos para ajudar no combate a pandemia em 23 países, enquanto quase todo mundo está com deficiência de profissionais de saúde.

O país que só tem segurança, educação e saúde dá um tapa na cara de quem não consegue perceber que esses são os verdadeiros direitos que a sociedade deve almejar. Na infeliz frase, Ricardo Amorim esqueceu de citar também moradia e alimentação. O que falta? A extrema-direita dirá que trata-se de uma ditadura, onde as pessoas não têm o direito de consumir. Parece piada, mas essa é a visão deturpada de liberdade democrática que os liberais capitalistas enxergam. Pessoas livres para consumir mesmo que nunca tenham as condições de viver com o mínimo de dignidade.

A pandemia que se espalhou pelo mundo evidenciou o exemplo de Cuba. Não vimos chegar de lá qualquer notícia de colapso nos hospitais, muito menos de pessoas amontoadas em caminhões frigoríficos esperando a hora de serem enterradas. Pra quem acha que a liberdade está em consumir, aquele ditado que diz: tem coisas que nem todo dinheiro do mundo compra, mostrou da forma mais cruel o que muitos não entendiam.

Tivemos bilionários morrendo em decorrência da covid, como o presidente do Santander em Portugal. Mas principalmente pessoas das classes baixas e médias estão sofrendo com a falta de atendimento. Nessa hora, talvez, percebam que democracia é ter direito a vida digna independente da condição financeira. Dividir direitos de forma isonômica é o que realmente torna uma nação democrática.

A socialização da miséria é a ditadura que o capitalismo implanta de forma consentida. A segurança, a educação e exatamente a saúde de Cuba incomodam muito, porque escancaram que só se pode falar em liberdade quando as riquezas são destinadas para servir ao público indistintamente. Para quem ainda não percebeu isso, mesmo diante da devastação promovida por um vírus que segrega e aumenta a desigualdade, só tenho a dizer: vai pra Cuba! Talvez ainda dê tempo para aprender.

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