A desvalorização acentuada do dólar americano tem impulsionado uma corrida histórica pelo ouro como ativo de refúgio, com bancos centrais ao redor do mundo — incluindo membros do Brics e países europeus — aumentando significativamente a participação do metal em suas reservas internacionais. O movimento reflete crescente desconfiança na moeda norte-americana em meio a políticas externas erráticas e hostis do presidente Donald Trump.

Dados do World Gold Council mostram que os bancos centrais, detentores de cerca de um quinto de todo o ouro já extraído (mais de 35 mil toneladas), aceleraram as compras ao longo de 2025. Nos primeiros 11 meses do ano, foram adicionadas quase 300 toneladas ao estoque global, tendência que se mantém firme no início de 2026. O Goldman Sachs estima que as aquisições mensais devem girar em torno de 60 toneladas este ano, equivalente a cerca de US$ 10 bilhões em negócios.
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Principais membros do Brics e nações europeias ampliaram suas posições em ouro. O Banco Central da China elevou a fatia do metal de 4% para 7,7% desde setembro de 2023. Na Índia, a participação subiu de 8,1% para 15,2% no mesmo período. O México aumentou de 3,5% para 5,7%. Na Europa, a França passou de 66% para 78%, e a Alemanha de 67% para 80%.
No Brasil, o Banco Central quase dobrou o valor das reservas em ouro ao longo de 2025: de US$ 11,7 bilhões para US$ 23,9 bilhões. Em termos percentuais, a fatia do metal nas reservas internacionais saltou de 3,5% em janeiro (quando o total era de US$ 328,3 bilhões) para 6,7% em dezembro (com reservas totais de US$ 358,2 bilhões).
“O ouro desempenha um papel estratégico na diversificação internacional de portfólios, podendo funcionar como um ativo de resiliência diante de cenários incertos, em um ambiente global cada vez mais fragmentado, marcado por choques geopolíticos, mudanças nas relações comerciais e desafios fiscais”, explica Luis Ferreira, diretor de investimentos do EFG Private Wealth Management.
A demanda aquecida reflete simultaneamente a queda do dólar frente a outras moedas. O índice DXY, que mede o desempenho do dólar contra uma cesta de divisas (euro, iene, libra e franco suíço), acumula baixa de 15% desde o início de 2025. “Investidores preocupados com as tensões geopolíticas e a interferência da administração Donald Trump na independência do Fed estão buscando refúgio em ativos que estão fora da discrição política”, pontua Daniela Hathorn, analista de mercado da Capital.com.
Os contratos futuros de ouro operam em patamares recordes, acima de US$ 5 mil por onça (28,35 gramas), acumulando ganhos de quase 90% em 12 meses. “Mesmo que haja uma realização de lucros, o que é normal em momentos de valorização forte, a tendência permanece de alta, e o mercado segue com força para buscar novos recordes”, analisa Mauriciano Cavalcante, economista da Ourominas.
A combinação de incerteza geopolítica, política externa imprevisível dos EUA e busca por ativos de proteção tem consolidado o ouro como principal alternativa ao dólar em um cenário de fragmentação econômica global.
Com informações do portal UOL.