A Braskem vive um dos momentos mais críticos de sua história, com uma dívida total de R$ 51,8 bilhões considerada impagável nas condições atuais e uma geração de caixa praticamente zerada. Analistas e gestores de mercado apontam que o pedido de recuperação judicial surge como caminho praticamente inevitável para a petroquímica.

No balanço de 2025, divulgado na semana passada, a companhia registrou prejuízo líquido de R$ 10,9 bilhões, dando continuidade a uma sequência de resultados negativos. Do total da dívida, R$ 47,6 bilhões estão denominados em moedas estrangeiras, o que agrava a pressão cambial sobre o balanço.
A própria auditora independente KPMG destacou no parecer “dúvida significativa quanto à capacidade de continuidade operacional da companhia”.
O fluxo de caixa operacional fechou o ano negativo em R$ 575 milhões, refletindo o alto custo de produção e a elevada ociosidade das plantas industriais. Um gestor de ações que acompanha de perto a situação resumiu o cenário: “A empresa está quebrada, sem uma solução para a dívida. Resta apenas pedir uma recuperação judicial”.
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A crise da Braskem é agravada pela queda prolongada dos preços petroquímicos no mercado global, especialmente devido ao excesso de capacidade na China e nos Estados Unidos. Somam-se a isso os efeitos do desastre ambiental em Maceió, que já geraram custos superiores a R$ 7 bilhões para a empresa e continuam gerando incertezas sobre seu futuro.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu um novo processo sancionador para investigar a forma como a Braskem divulgou ao mercado as informações sobre o passivo ambiental em Maceió. Entre os 33 acusados estão o ex-controlador Marcelo Odebrecht e o ex-CEO Fernando Musa.
Uma das propostas em discussão no mercado envolve a gestora IG4 Capital, que negociou com bancos credores a possibilidade de adquirir uma fatia relevante da dívida, convertê-la em ações e assumir o controle da companhia. A aprovação da proposta pelo Cade, no início de março, chegou a fazer as ações BRKM5 subirem 30%. Porém, todo o ganho foi apagado após a divulgação do balanço considerado “desastroso” pelo mercado, com as ações chegando a cair 10,8% em um único dia.
O Bank of America mantém recomendação de venda para os papéis da Braskem e expressa dúvidas sobre a viabilidade da operação com a IG4. “Esperamos que a queima de caixa persista nos próximos anos, em meio ao prolongado ciclo de baixa dos spreads petroquímicos. Nesse contexto, acreditamos que a Braskem e a IG4 Capital precisarão buscar novas soluções para lidar com a alavancagem da empresa e, mais importante, com um potencial problema de liquidez que deve emergir”, avaliou o banco.
Um gestor de special situations foi ainda mais direto: “A IG4 está no caminho certo. Mas não vejo uma solução que não passe por um haircut relevante. É preciso reduzir cerca de 90% dessa dívida e entrar muito dinheiro novo”. Para ele, as ações e os bonds da companhia ainda parecem caros diante dos fundamentos, e o único fator que sustenta algum prêmio é a expectativa de resgate, na lógica do “too big to fail”.
Enquanto buscam uma solução de longo prazo, os executivos da Braskem priorizam a preservação da liquidez. “Seguiremos com a implementação do plano de resiliência, com foco na preservação da liquidez financeira da companhia, por meio do controle rigoroso de custos”, afirmou Rosana Avólio, diretora de Relações com Investidores.
A Petrobras, segunda maior acionista da Braskem com 36% do capital total e 47% das ações com direito a voto, tem adotado postura mais distante, sem sinalizar novos aportes. Na call de resultados, o CEO Roberto Ramos limitou-se a dizer que a estatal “tem total conhecimento da situação da Braskem e enorme interesse no investimento que ela tem na companhia”.
Com informações do portal Neofeed.