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Especialistas alertam: uso do FGTS no Desenrola 2.0 pode agravar endividamento das famílias
Termômetro da Política
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A segunda fase do Programa Desenrola Brasil, apelidada de Desenrola 2.0, deve ser lançada ainda nesta semana pelo governo federal. Entre as principais novidades está a liberação do saldo do FGTS para quitação de dívidas, medida que divide opiniões e já recebe críticas de economistas e planejadores financeiros.

Programa permitirá que trabalhadores utilizem recursos do FGTS para limpar o nome (Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

Com o endividamento das famílias brasileiras em 49,9%, segundo o Banco Central, o programa permitirá que trabalhadores utilizem recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço para limpar o nome. No entanto, especialistas temem um “efeito rebote”: ao quitar as dívidas, o consumidor recupera o acesso a novo crédito, o que pode levar ao endividamento novamente, agora sem a reserva do FGTS.

Jeff Patzlaff, planejador financeiro e especialista em investimentos, vê risco elevado nesse ciclo. “Em poucos meses, essa pessoa pode voltar a se endividar. E, dessa vez, sem o FGTS como reserva. Ou seja, ela reduz seu patrimônio e transfere riqueza para o sistema financeiro”, explica.

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O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, vai além e compara a medida a “enxugar gelo”. “Medidas paliativas não resolvem uma questão estrutural. O endividamento e a inadimplência tendem a continuar crescendo”, afirma.

Atualmente, cerca de 27,5 milhões de brasileiros estão em inadimplência recorrente, com dívidas médias de R$ 1,1 mil, segundo a Assertiva. O cenário é agravado pelos altos juros: a Selic está em 14,75%, enquanto o rotativo do cartão de crédito supera 400% ao ano.

Ruy Archer, gerente de recuperação de crédito do Sistema Ailos, aponta um problema cultural. “Há um problema cultural na gestão do dinheiro. A educação financeira não evoluiu no mesmo ritmo da expansão do crédito”, avalia.

Para Fabio Murad, economista e sócio-fundador da Ipê Avaliações, o problema tem raízes mais profundas: “Falta de educação financeira prática, custo do crédito extremamente elevado e ambiente econômico desfavorável, com inflação persistente, moeda fraca e alta carga tributária. Esse conjunto faz com que pequenas dívidas se transformem rapidamente em bolas de neve”.

Gabriel Ramalho, especialista em crédito consignado, reforça que soluções duradouras dependem do enfrentamento desses fatores estruturais. “Sem isso, continuaremos presos a ciclos de endividamento, nos quais o consumidor entra, sai e retorna à inadimplência”, conclui.

O Desenrola 2.0 deve beneficiar trabalhadores com renda de até cinco salários mínimos (R$ 8.105), com descontos entre 20% e 90% sobre o valor das dívidas. Os bancos se comprometeram a reduzir as taxas de refinanciamento para abaixo de 2% ao mês, com garantia do Tesouro Nacional. O governo deve destinar cerca de R$ 7 bilhões ao programa, com potencial para alcançar até 10 milhões de pessoas. O uso do FGTS será limitado a até 20% do saldo disponível.

Com informações da CNN.

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