Duas frentes no Congresso querem gasolina sem etanol (E0) ou com só 10% (E10) na mistura da gasolina que é vendida ao consumidor final, no posto de combustíveis, no sentido contrário da política atual. Desde 1º de agosto a comum e a aditivada subiram de E30 (30%) para E32 (32%) por 180 dias, prorrogáveis. O governo ainda planeja teste com um percentual ainda maior, elevando o etanol na mistura para 35%.

A iniciativa mais adiantada é a Sugestão Legislativa 30/2026, no Senado: oferecer E0 e E10 em todo o país sem tirar a mistura obrigatória. Nasceu no e-Cidadania com mais de 24 mil apoios. Desde 17 de setembro está com o senador Laércio Oliveira (PP) na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa. Se a comissão acolher, vira proposição.
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Na Câmara, o PL 4.783/2026, do deputado Dr. Fernando Máximo (PL), quer tornar obrigatória a gasolina integralmente sem etanol, citando carro de coleção e frota não flex. Aguarda despacho da Presidência.
A queixa une colecionador, náutica e quem reclama da eficiência da mistura alta. A Federação Brasileira de Veículos Antigos posicionou-se contra o E32: carro antigo não foi feito para tanto álcool. Andrés Pesserl, presidente da FBVA, diz que modelos até os anos 1990 podem ter mangueira, vedação e carburador incompatíveis até com os 30% anteriores.
A Acatmar convocou o setor a apoiar a sugestão do Senado. Parte de motor marítimo, moto aquática e gerador, afirma, foi projetada para no máximo 10% de etanol, com recomendação de Mercury Marine, Yamaha e Sea-Doo — risco maior em equipamento parado ou em ambiente úmido.
A gasolina sem etanol já existe na cadeia: é a gasolina A, de refinaria, formulador, petroquímica ou importação. A distribuidora mistura o etanol anidro e vira gasolina C, a da bomba. Liberar E0 no varejo exigiria regra nova. A ANP teria de fixar qualidade, octanagem e volatilidade. A base brasileira é formulada para receber álcool, que também sobe a octanagem. Tirar o etanol não produz, sozinho, combustível melhor.
O engenheiro químico Vinícius Bimbato explica que um litro com menos etanol tem mais energia e, em condições iguais, tende a render mais quilômetros, porque o álcool tem menor conteúdo energético. “Isso não significa, porém, que trocar E32 por E10 ou E0 geraria exatamente o mesmo ganho de consumo em todos os automóveis. O comportamento depende do projeto do motor, da calibração eletrônica, da taxa de compressão, da octanagem e de outros parâmetros”. No flex, a eletrônica já trabalha com variação grande de etanol; a octanagem alta do álcool pode compensar parte da perda energética. “Por isso, não é correto simplesmente comparar a porcentagem de etanol e dizer que um carro obrigatoriamente passaria a rodar determinada porcentagem a mais. O que é possível afirmar é que, mantidas as demais condições, E10 e E0 iriam proporcionar maior quilometragem por litro do que E32”.
Rodar mais por litro não é gastar menos. O etanol anidro é mais barato que a gasolina A. No E32, cerca de 680 ml são gasolina e 320 ml etanol; no E10, 900 ml e 100 ml; no E0, só gasolina. O Ministério de Minas e Energia estimou que os dois pontos a mais do E32 poupariam cerca de 900 milhões de litros de gasolina por ano. Preço final de E10 ou E0 dependeria ainda de tributo, margem, frete e tanque extra. O que conta para o consumidor é o custo por quilômetro.
Misturar E32, E10 e E0 na mesma rede exigiria segregação — tanque, linha e bomba à parte — e regulamento da ANP. A sugestão do Senado fala em opção. O projeto da Câmara fala em oferta obrigatória, o que pesa de outro jeito no posto.
Com informações do portal UOL.