Políticos e apoiadores do bolsonarismo manifestam crescente insatisfação com a postura considerada tímida do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), em relação à pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República em 2026. Embora Tarcísio tenha afirmado a jornalistas que o senador poderá contar com seu apoio, o governador evita declarações espontâneas sobre o tema, não manifesta publicamente respaldo nas redes sociais e não compareceu a eventos da pré-campanha, como o almoço com empresários realizado em dezembro em São Paulo.

Entre os bolsonaristas, já circula a alcunha pejorativa de “Tarcísio Garcia” para o governador, em alusão ao ex-governador Rodrigo Garcia, que se manteve neutro entre Lula (PT) e Bolsonaro na campanha de 2022 e terminou em terceiro lugar, fora do segundo turno. Essa ala avalia que, sem um apoio firme e declarado, Tarcísio corre o risco de ser visto como “traidor” e de se tornar alvo da artilharia do grupo.
Aliados do governador, por outro lado, argumentam que a ansiedade dos apoiadores de Flávio é natural, mas que o momento ainda não é de campanha aberta. Segundo eles, Tarcísio está concentrado na gestão estadual e na articulação com outros partidos, cabendo ao senador a responsabilidade de conduzir a pré-candidatura.
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Há também vozes dentro do próprio bolsonarismo que consideram as críticas precipitadas. Fabio Wajngarten, ex-chefe da Secretaria de Comunicação Social do governo Bolsonaro, afirmou: “Há que se respeitar o tempo de cada pessoa. Nem tudo ocorre na janela temporal que terceiros desejam”. Ele acrescentou: “A relação do governador com o presidente é de total lealdade, respeito e amizade”.
Líderes partidários e entusiastas da pré-candidatura de Flávio, no entanto, acreditam que, caso o senador mantenha a intenção de concorrer, Tarcísio acabará entrando de cabeça na campanha, ainda que por razões de sobrevivência política. O senador Ciro Nogueira, presidente do PP, declarou: “Ele não vai querer nunca ser um [João] Doria, ficar com viés de traidor”. Nogueira, que descartou publicamente a possibilidade de Tarcísio ser candidato à Presidência, avaliou que o governador ficou frustrado por não ter sido o escolhido de Bolsonaro para a missão, mas garantiu que o próprio Tarcísio já lhe disse que apoiará Flávio.
Um integrante do PL especula que, na hipótese de Tarcísio não se engajar plenamente na campanha, Bolsonaro poderia até apoiar outro nome em São Paulo, rompendo com o governador para garantir um palanque mais alinhado ao filho. Nogueira, porém, considera isso improvável: “seria ruim para os dois”.
O governador era visto como o nome preferido do mercado financeiro e do centrão para uma candidatura presidencial capaz de unificar a direita. Ao longo de 2025, Tarcísio adotou discursos de tom nacional e críticos ao governo federal, mas sempre afirmou ser candidato à reeleição em São Paulo. Mesmo entre políticos que acreditam nessa intenção, há quem avalie que Tarcísio ficou frustrado, ao menos, com a forma como a pré-candidatura de Flávio foi anunciada em dezembro, por meio de postagem do senador nas redes sociais após a revelação pelo portal Metrópoles, sem um evento prévio construído com o PL e aliados.
Antes do anúncio público, Flávio viajou a São Paulo para comunicar pessoalmente a decisão a Tarcísio. A escolha de manter a influência do clã Bolsonaro e de deixar de lado outros atores, incluindo o governador que aguardava orientações para 2026, seria, segundo um integrante do PL, o motivo da atual resistência de Tarcísio em apoiar abertamente a campanha. O governador demorou três dias para se pronunciar após o anúncio e, quando o fez, questionado pela imprensa, limitou-se a dizer que Flávio se juntava a “outros grandes nomes da oposição” que haviam se colocado à disposição, tentando por diversas vezes desviar do assunto.
Para os entusiastas da campanha de Flávio, o apoio de Tarcísio é estratégico não apenas pelo peso do maior colégio eleitoral do país, mas também pela possibilidade de apresentar o senador como uma versão “light” do pai, com Tarcísio servindo de exemplo de “bolsonarista moderado” bem-sucedido.
Na virada do ano, Tarcísio se afastou por 17 dias para férias nos Estados Unidos. Na mesma época, Flávio visitou o irmão Eduardo Bolsonaro no país, mas não houve encontro entre os dois. Em entrevista recente ao blogueiro Paulo Figueiredo, Flávio afirmou que sua pré-candidatura tem a vantagem de não colocar em risco o controle da direita sobre São Paulo. Ele destacou que, se Tarcísio concorresse à Presidência e perdesse, o grupo poderia ficar sem governo federal e sem o estado paulista. O senador garantiu que Tarcísio não perde a reeleição “de jeito nenhum”.
Flávio também relatou ter recebido uma ligação de Tarcísio no Natal: “Ele falou ‘Flávio, feliz Natal, estamos juntos, conta comigo’. Fiquei feliz demais. Tarcísio está nas férias dele, dando uma recarregada nas baterias, como eu também estou”. O senador concluiu: “Respeito muito o Tarcísio, um cara leal ao Bolsonaro. No tempo dele, vai estar perto, dar o palanque, e vamos caminhar juntos. A vitória no plano nacional passa principalmente por São Paulo”.
Com informações da Folha de S.Paulo.