O estilista italiano Valentino Garavani morreu nesta segunda-feira (19), aos 93 anos, deixando como legado um dos capítulos mais sofisticados da história da moda internacional — aquele em que elegância, disciplina e romantismo caminharam lado a lado por mais de seis décadas. Fundador da maison que leva seu nome, Valentino construiu um império baseado em silhuetas impecáveis, bordados preciosos e uma visão muito particular de feminilidade. Sua moda nunca gritou. Seduziu. Nunca correu atrás do tempo. Criou o seu próprio.

“Sem inovar, seu estilo, apoiando-se numa bela técnica da roupa sob medida, excede-se na valorização de uma sensualidade que ainda hoje exala todo o perfume da dolce vita”, escreveu François Baudot, autor do livro Moda do Século, publicado em 1999.
Poucos estilistas conseguiram transformar uma cor em identidade e serem imediatamente associados a ela sempre que surgia. Ao lado de Chanel (preto), Schiaparelli (rosa-choque), Courrèges (branco) e Armani (bege e cinza), Valentino Garavani teve no vermelho sua cor-símbolo, segundo o professor de moda João Braga. A tonalidade surgiu ainda no início da carreira, no fim dos anos 1950, quando Valentino apresentou um vestido vibrante, batizado de Fiesta, que se destacava entre tons neutros e pastéis tão comuns à época. Não demorou para o tom se tornar assinatura. Valentino fez do vermelho um símbolo de poder, desejo e presença. Em suas próprias palavras, era uma cor que “faz a mulher entrar no ambiente antes mesmo de dizer qualquer coisa”. A intensidade daquele vermelho — nem aberto demais, nem fechado — chamou atenção imediatamente e passou a ser repetida, coleção após coleção. O impacto foi tão forte que a Pantone batizou a mistura de 100% magenta, 100% amarelo e 10% preto de Red Valentino, uma tonalidade que remete à papoula.
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Formado em Paris, onde trabalhou com grandes nomes da alta-costura, Valentino voltou à Itália decidido a criar algo que unisse o rigor francês à sensualidade italiana. Fundou sua maison em Roma, em 1959, ao lado de Giancarlo Giammetti, parceiro fundamental na construção da marca e em sua projeção internacional. Valentino foi um dos responsáveis por colocar a moda italiana no mesmo patamar da francesa, levando Roma para o centro do mapa fashion. Sua estética refinada conquistou editoras, compradores e mulheres que buscavam roupas atemporais — feitas para atravessar anos, não estações.
Valentino entendeu o poder do tapete vermelho antes mesmo de ele se tornar um fenômeno midiático. Suas criações vestiram algumas das mulheres mais fotografadas do século 20 e do início do século 21. Jackie Kennedy Onassis foi uma de suas clientes mais fiéis e ajudou a consolidar sua imagem junto à elite internacional. Audrey Hepburn, Brigitte Bardot, Elizabeth Taylor, Sophia Loren, Lady Di e, mais tarde, Julia Roberts, Gwyneth Paltrow e Sharon Stone, Anne Hathaway transformaram seus vestidos em momentos históricos do cinema e da moda. Valentino sabia como ninguém criar roupas que funcionavam sob os holofotes: tecidos que se moviam com elegância, cortes que favoreciam o corpo e uma aura de glamour que dispensava excessos.
Em 2007, o estilista anunciou sua aposentadoria. No ano seguinte, apresentou seu último desfile de alta-costura em Paris — um encerramento emocionante, marcado por vestidos etéreos, muitos deles em variações do vermelho que eternizou seu nome. A partir dali, a criação da grife passou para Maria Grazia Chiuri e Pierpaolo Piccioli, que deram continuidade ao legado com respeito e contemporaneidade. Anos depois, Piccioli assumiu sozinho a direção criativa e permaneceu no comando até 2024. Desde então, a Valentino vive uma nova fase sob a direção de Alessandro Michele, que assumiu a criação da maison trazendo uma leitura mais maximalista e autoral, dialogando com o passado sem se prender a ele.
De acordo com a revista Bazaar, o primeiro look de Michele no desfile em Paris, há um ano, com inspiração circense, levou 13 mil horas para ser concluído.
Além do vermelho, Valentino ficou conhecido por vestidos de noite esculturais, rendas delicadas, laços dramáticos e uma alfaiataria precisa, especialmente em peças brancas — outra de suas obsessões estéticas. Suas passarelas reuniram algumas das modelos mais icônicas da moda, como Naomi Campbell, Linda Evangelista, Claudia Schiffer, Gisele Bündchen, entre tantas outras que ajudaram a traduzir sua visão de mulher: forte, elegante e absolutamente segura de si.
Com a morte de Valentino Garavani, a moda se despede de um de seus últimos grandes mestres clássicos. Um criador que acreditava no tempo, no feito à mão, na beleza que não depende de tendências. “Seu poder estético, as influências que trouxe para a moda e a maestria ao criar roupas o consagraram como o grande imperador da moda. Seu legado continuará inspirando”, escreveu o consultor de moda Arlindo Grund em suas redes sociais.
As redes sociais da Maison Valentino resumiram assim seu legado: “Sua vida foi um farol na busca constante pela beleza e, guiados por essa mesma beleza, continuaremos a honrá-lo com nossa mais profunda devoção. Seu estilo único e elegância inata permanecerão para sempre”.
Com informações do portal Terra.