O julgamento do pedido de habeas corpus para o influenciador Hytalo Santos e seu marido, Israel Nata Vicente, presos preventivamente desde agosto por suspeita de aliciamento de menores, foi suspenso na manhã desta terça-feira (10) após pedido de vista feito pelo desembargador Ricardo Vital de Almeida, da Câmara Criminal do Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB).

O relator do caso, desembargador João Benedito, posicionou-se a favor da libertação do casal, entendendo que a prisão preventiva, que já dura seis meses, deveria ser substituída por medidas cautelares. Caso aceitas, Hytalo e Israel teriam de usar tornozeleira eletrônica, estariam proibidos de deixar a região de João Pessoa e Bayeux, ficariam impedidos de usar redes sociais e não poderiam manter contato com os adolescentes e familiares investigados no caso.
A defesa alegou que há “constrangimento legal” na prisão preventiva dos dois pela demora no julgamento. No pedido de soltura protocolado pela Justiça, os advogados argumentaram que ambos são réus primários e possuem residência fixa.
As acusações contra o casal ganharam repercussão nacional após a divulgação de um vídeo de 50 minutos do youtuber Felca, no qual ele apontou a atuação de Hytalo e outros influenciadores na adultização de adolescentes em conteúdos para redes sociais.
Mandados de busca e apreensão foram cumpridos inicialmente na residência do casal em João Pessoa, em agosto de 2025. Como Hytalo não foi encontrado no local e, após a apreensão de equipamentos, o juiz pediu prisão preventiva por risco de obstrução da investigação.
Hytalo e Israel foram presos no dia 15 de agosto, em uma casa alugada em Carapicuíba (SP). Na operação, oito pessoas estavam na casa, mas nenhum menor de idade foi encontrado. Foram apreendidos oito celulares e um carro.
A defesa classificou a prisão como uma “medida extrema” e informou que tomaria as medidas judiciais cabíveis para garantir os direitos de seu cliente. Em audiência de custódia, o influenciador declarou à Justiça não entender o motivo da prisão, afirmando estar confuso com as acusações.
Para o Ministério Público da Paraíba, Hytalo e Euro (como Israel é conhecido) aliciaram crianças de famílias com condições sociais desfavoráveis em Cajazeiras (PB). Eles abrigaram as crianças e adolescentes na casa deles em João Pessoa comprando o consentimento dos pais das vítimas, pessoas vulneráveis e de baixa instrução.
Hytalo e Euro teriam cometido “múltiplas formas de exploração sexual” contra crianças e adolescentes. O MP destaca ainda que as “crias”, como eram chamados os jovens “adotados” por Hytalo, eram exibidas “seminuas, com trajes sumários e provocativos”. Para o órgão, as vítimas faziam alusão explícita a práticas sexuais e depreciativas à figura da mulher. As crianças e adolescentes frequentavam “ambientes moralmente tóxicos” e eram submetidas a procedimentos estéticos.
Ainda segundo a denúncia, as crianças e adolescentes “eram ostentadas como troféus e oferecidas como prêmio” em redutos do crime organizado, em troca de favores e parcerias comerciais. Testemunhas também relataram que as “crias” eram submetidas a cárcere privado e regime de trabalho análogo a escravidão.
Entre as pessoas ouvidas estão ex-assessores e ex-seguranças que afirmaram que as vítimas eram isoladas do convívio familiar, tinham celulares e meios de comunicação confiscados, eram submetidas a um rígido controle de rotina e a uma agenda exaustiva de gravações sem remuneração. Elas também eram submetidas a procedimentos estéticos e coagidas psicologicamente, segundo o MP.
O órgão ressaltou que os adolescentes também não tinham gerência sobre suas identidades de gênero e orientações sexuais.
O Ministério Público do Trabalho da Paraíba pede um pagamento de indenização por dano moral coletivo de R$ 12 milhões. O MP também pede a reparação de indenizações individuais de R$ 2 milhões a R$ 5 milhões às vítimas, além da concessão de medidas adequadas de proteção e assistência às vítimas, como acompanhamento médico, psicológico e social. Para as vítimas menores de idade, a indenização deve ser depositada em uma poupança que só poderá ser acessada após o beneficiário completar 18 anos, exceto em caso de “necessidades inadiáveis”.
O Ministério Público também responsabilizou, na denúncia, os pais e responsáveis das crianças e adolescentes. O órgão considerou que os genitores entregaram os filhos a terceiros em troca de vantagens materiais, permitiram que se mudassem para uma casa a centenas de quilômetros da família, deixando de supervisionar a educação, a saúde e vida escolar.
O caso tramita em segredo de Justiça. Segundo o Ministério Público, isso resguarda informações sensíveis “para que não haja indevida publicação das repugnantes situações de violência a crianças e adolescentes descritas nos autos, evitando-se a revitimização”.
Com informações do portal UOL.