Durante o show nos desfiles das campeãs na Marquês de Sapucaí, neste sábado (21), o cantor João Gomes parou a apresentação, apontou para a plateia e pediu uma salva de palmas. Em seguida, declarou que a maior celebridade daquela noite não estava no palco, mas na arquibancada. O homenageado era Tatiana Sampaio, bióloga e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Tatiana Coelho de Sampaio, de 59 anos, professora do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, subiu ao palco com timidez para abraçar o cantor. A pesquisadora, que passa a vida em laboratório e não sob holofotes, recebeu a homenagem emocionada.
A bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, professora do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lidera há quase três décadas uma pesquisa que se tornou uma das maiores esperanças científicas brasileiras para o tratamento de lesões na medula espinhal. Coordenadora do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular, ela desenvolveu a polilaminina, uma molécula derivada da laminina — proteína natural do organismo produzida durante a gestação para guiar o crescimento neuronal.
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A polilaminina atua como um “andaime biológico” ou “trilho” que organiza o ambiente local da medula lesionada, estimulando a regeneração de neurônios e a reconexão nervosa. Estudos experimentais em animais (ratos e cachorros) e em fase preliminar com humanos demonstraram recuperação parcial ou total de movimentos em casos de lesão medular completa, considerada irreversível pela literatura médica convencional. Em testes clínicos iniciais conduzidos em parceria com o laboratório Cristália, pacientes tetraplégicos e paraplégicos recuperaram funções motoras, sensibilidade e, em alguns casos, capacidade de andar.
A substância é aplicada diretamente na medula espinhal em doses pequenas, preferencialmente nos primeiros dias após a lesão aguda. A pesquisadora Tatiana Sampaio explica que a ideia surgiu de forma inesperada ao observar o potencial regenerativo da laminina placentária. “Eu só pensava em ser cientista. Estudar neurobiologia sempre foi uma coisa fascinante pra mim”, afirmou em entrevista.
O trabalho ganhou projeção nacional e internacional em 2026, após divulgação de resultados preliminares e aprovação da Anvisa para avanço em testes clínicos. Tatiana Sampaio se reuniu com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para discutir a relevância estratégica da descoberta e seu potencial de beneficiar pacientes pelo SUS. Apesar do avanço, a cientista destaca que ainda não há certeza absoluta de resultados “espetaculares”, mas que o potencial é significativo.
A pesquisa enfrentou desafios, incluindo perda da patente internacional por cortes orçamentários na UFRJ entre 2015 e 2016, que impediram o pagamento de taxas de manutenção no exterior. A patente nacional só foi concedida em 2025, após 18 anos de tramitação.
Tatiana Coelho de Sampaio nasceu no Rio de Janeiro em 4 de outubro de 1966. Graduada em Ciências Biológicas pela UFRJ, ingressou como professora na instituição aos 27 anos, após pós-doutorado. Sua trajetória é marcada pela persistência em um campo considerado impossível pela ciência convencional por décadas: a regeneração da medula espinhal adulta. Hoje, ela é uma das cientistas brasileiras mais comentadas, com sua descoberta celebrada como possível candidata ao Nobel de Medicina.
Com informações dos portais Glamour, BBC, Fundação Perseu Abramo e UFRJ.