ads
Geral - -
Frase ‘regret nothing’ na camisa de réu por estupro coletivo remete à influência da ‘machosfera’ e de Andrew Tate
Termômetro da Política
Compartilhe:

Vitor Hugo Oliveira Simonin, de 18 anos, um dos acusados no caso de estupro coletivo ocorrido em Copacabana, apresentou-se à polícia na última quarta-feira (4) vestindo uma camisa com a expressão em inglês “regret nothing” (“não me arrependo de nada”, em tradução livre). A frase, estampada no momento da entrega voluntária, ganhou atenção por sua associação direta com o universo da chamada “machosfera” — conjunto de comunidades online que propagam discursos misóginos, de subjugação das mulheres e de ódio de gênero.

Vitor Hugo Simonin, de 18 anos, chegou na 12ªDP (Copacabana) acompanhado do seu advogado
Vitor Hugo Simonin se apresentou à Polícia vestindo uma camisa com a expressão em inglês “regret nothing” (Foto: Reprodução)

A expressão “regret nothing” foi popularizada pelo coach Andrew Tate, um dos principais expoentes do grupo Red Pill, movimento declaradamente misógino que dissemina a ideia de “despertar para a realidade” masculina, em alusão ao filme Matrix (1999), no qual a pílula vermelha revela verdades ocultas. Tate, ex-campeão mundial de kickboxing quatro vezes, ganhou projeção em 2016 ao participar do reality show “Big Brother” britânico, de onde foi expulso após a divulgação de um vídeo em que agredia uma mulher.

Leia também
EUA preparam designação de CV e PCC como organizações terroristas estrangeiras; entenda os riscos para o Brasil

Depois do programa, Tate concentrou sua atuação nas redes sociais, exibindo um estilo de vida luxuoso — com carros esportivos, jatos particulares e iates — e disseminando conteúdos misóginos. Atualmente, ele mantém conta apenas no X (antigo Twitter), com mais de 11 milhões de seguidores, após ser banido do Instagram e do TikTok por violar políticas contra discurso de ódio.

Tate responde a acusações graves de estupro, tráfico humano e exploração sexual na Romênia e no Reino Unido. Segundo a Justiça romena, ele e o irmão Tristan Tate teriam criado, em 2021, uma organização criminosa para explorar sexualmente vítimas. O porta-voz de Tate afirmou à imprensa internacional que os irmãos “negam inequivocamente todas as acusações e denunciam o que consideram ser um uso abusivo do sistema legal”.

Tate também é citado na série Adolescência, da Netflix, que discute a influência da machosfera entre jovens e a omissão parental na era digital.

Para Isadora Vianna, pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Desigualdades Contemporâneas e Relações de Gênero (Nuderg), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Tate é visto por seguidores como um “símbolo de masculinidade” contemporânea associado à ideia de sucesso. “Além de propagar o discurso misógino, ele se coloca e é visto como um símbolo de sucesso econômico: um homem rico, bem-sucedido, cercado de mulheres. É o que muitos gostariam de ser. Por isso, atingir esse ponto emocional das frustrações econômicas é tão importante para esse tipo de conteúdo”, explica.

A “machosfera” engloba grupos como os Red Pill — que pregam o “despertar” para uma suposta realidade de dominação feminina —, os incels (“celibatários involuntários”, homens que alegam incapacidade de encontrar parceiras românticas ou sexuais) e o movimento MGTOW (Men Going Their Own Way), que defende o afastamento de relacionamentos com mulheres.

“Eles propagam discursos violentos e reforçam a ideia de uma ordem de gênero rígida, definindo qual seria o papel do homem e da mulher e ignorando completamente a autonomia feminina. Também reforçam a noção de que o valor da mulher está ligado à aparência. É uma objetificação muito grande, e esses perfis lucram com a monetização do discurso de ódio”, afirma Vianna.

A pesquisadora destaca que os algoritmos das redes sociais impulsionam a circulação desse conteúdo, ampliando seu alcance. “Eles dão respostas muito fáceis para frustrações dos jovens. Se não têm sucesso nos relacionamentos, na escola, na faculdade ou na carreira que está começando, oferecem respostas muito simplistas do porquê ele é ‘rejeitado’”, observa.

Para Vianna, o crescimento desses grupos também pode ser interpretado como reação às conquistas do movimento feminista e ao avanço do debate público sobre violência de gênero. “A internet é reflexo da sociedade e também influencia comportamentos. Hoje, grande parte da informação, das interações e da formação de opinião passa por ela. Por isso, o que circula nas redes precisa ser tratado com seriedade, porque esses discursos acabam influenciando práticas e atitudes”, conclui.

Com informações de O Globo.

Compartilhe: