Geral - -
Brasileira com doença neurodegenerativa viaja à Suíça e realiza suicídio assistido para preservar dignidade
Termômetro da Política
Compartilhe:

A brasileira Célia Maria Cassiano, de 67 anos, morreu na quarta-feira (15) na Suíça após ingerir, por conta própria, uma substância prescrita por médico em procedimento de suicídio assistido. Diagnosticada com uma doença neurodegenerativa que afeta o segundo neurônio motor, ela decidiu interromper a própria vida enquanto ainda mantinha plena consciência.

Célia optou por buscar o procedimento na Suíça, único país que aceita estrangeiros não residentes para suicídio assistido
Célia optou por buscar o procedimento na Suíça, único país que aceita estrangeiros não residentes para suicídio assistido (Foto: Reprodução/Instagram)

Mestre em Multimeios pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e formada em Ciências Sociais, Célia construiu carreira na academia, entre aulas, orientação de alunos e gestão de cursos de Comunicação. Em 2025, recebeu o diagnóstico da condição que compromete progressivamente os movimentos e a fala, sem afetar a capacidade cognitiva.

“Eu não queria ficar totalmente dependente, presa numa cama, ligada a aparelhos”, disse ela em vídeo gravado para as redes sociais.

Nos últimos meses, a perda de autonomia tornou-se realidade. “Hoje eu preciso de três pessoas para me levarem no banheiro: uma me levanta, uma tira minha roupa, outra me ajuda a sentar”, relatou. “Eu estou no limite da minha dignidade.”

Leia também
Deputada Andréa Werner registra BO e queixa-crime contra vereador de Guarulhos por ofensas misóginas

Célia optou por buscar o procedimento na Suíça, único país que aceita estrangeiros não residentes para suicídio assistido. O acesso exige cumprimento de critérios médicos e legais, além de custo aproximado de R$ 65 mil (11 mil francos suíços), sem incluir viagem e hospedagem.

“Eu sou uma privilegiada, porque isso é muito caro”, reconheceu.

O rito seguiu o protocolo suíço: após a morte, a polícia foi ao local para verificar documentação, confirmar consentimento livre e atestar a legalidade. O corpo foi encaminhado para perícia e posterior cremação.

No Brasil, não existe legislação que autorize qualquer forma de morte assistida — seja suicídio assistido, em que a pessoa administra a substância, ou eutanásia, realizada por profissional. A advogada Luciana Dadalto, presidente da associação “Eu Decido”, explica que a ausência de regulamentação impede qualquer caminho formal para quem deseja essa escolha.

Nos dias que antecederam o procedimento, Célia optou por fazer turismo na Suíça. Visitou museus, caminhou pela cidade e foi a restaurantes. “Eu fiquei tranquila porque sabia que não ia ficar presa numa cama”, disse. “Eu quero uma morte sem dor.”

Antes de partir, deixou um recado: “Lutem por esse direito no Brasil. Não é uma obrigação. É uma escolha.”

A morte de Célia ocorre em um momento em que o debate sobre morte assistida ganha espaço em alguns países da América Latina. Na quinta-feira (16), o Uruguai regulamentou lei que permite eutanásia para pacientes com doenças graves, incuráveis e irreversíveis, mediante critérios médicos, psicológicos e manifestação expressa do paciente — restrita, porém, a cidadãos e residentes.

Enquanto isso, no Brasil, o tema permanece sem regulamentação legal, limitando-se a discussões pontuais no Judiciário.

Célia construiu sua decisão ao longo do tempo, a partir da forma como entendia dignidade e autonomia. “Eu decidi lutar pelo meu direito de ter uma morte digna.”

Com informações do portal g1.

Compartilhe: