O fundo de pensão dinamarquês AkademikerPension anunciou na terça-feira (20) a venda total de sua posição em títulos do Tesouro americano, equivalente a cerca de US$ 100 milhões, com conclusão prevista até o final do mês. A decisão reacende debates sobre o uso do mercado financeiro como instrumento de pressão política em meio à escalada de atritos entre Estados Unidos e Europa, especialmente após as ameaças tarifárias do presidente Donald Trump contra aliados europeus.

Anders Schelde, diretor de investimentos do fundo, afirmou que o motivo principal é a avaliação sobre a sustentabilidade fiscal dos Estados Unidos. Ele reconheceu, no entanto, que o ambiente geopolítico entre EUA e Europa, em particular o conflito em torno da Groenlândia, “tornou a decisão mais fácil”.
O AkademikerPension administra 164 bilhões de coroas dinamarquesas (cerca de US$ 25,7 bilhões) e utilizava os Treasuries como parte de sua estratégia de liquidez e gestão de risco. Agora, busca alternativas para cumprir essa função sem carregar o risco que passou a enxergar nos títulos americanos.
Leia também
Em Davos, Trump critica migração em massa e diz que Europa está ‘indo na direção errada’
O temor com a trajetória fiscal dos EUA é compartilhado pela Moody’s Ratings, que rebaixou a classificação de crédito soberano americana de Aaa para Aa1 em maio, citando o déficit orçamentário e os altos custos de endividamento associados à rolagem da dívida em níveis elevados de juros.
Os Estados Unidos registraram déficit orçamentário de US$ 1,78 trilhão no ano passado, queda de pouco mais de 2% em relação ao ano fiscal de 2024, à medida que as tarifas amplas e elevadas de Trump entraram em vigor.
A maior parte dos ativos dos EUA mantidos na Europa é capital privado. Em caso de deterioração mais forte da relação transatlântica, haveria espaço para uma reação que extrapole tarifas e atinja diretamente o mercado de capitais americano, com venda de Treasuries e/ou ações para pressionar juros, dólar e condições financeiras nos EUA.
No entanto, esse montante poderoso não está nas mãos de agentes públicos. Mesmo quando há braços públicos (fundos soberanos e entidades estatais), qualquer deslocamento em bloco esbarra em mandato, governança e, principalmente, no custo para o próprio investidor europeu, já que uma venda em escala provavelmente reduziria preços e pioraria a marcação a mercado de quem ainda detém esses papéis.
O caso do AkademikerPension mostra que alguma pressão pode ocorrer. Apesar de US$ 100 milhões serem muito pouco para ter impacto sozinho, alimenta a discussão sobre apetite estrangeiro para financiar o déficit americano.
Na visão de alguns agentes do mercado financeiro, a posição internacional líquida dos EUA é um fator de risco para o dólar “somente se” estrangeiros aceitarem sofrer financeiramente ao reduzir posições. Mesmo que investidores do setor público europeu deixem de acumular ativos dos EUA ou comecem a vender, “a situação provavelmente precisa se agravar” antes que eles aceitem piorar o desempenho de portfólio por objetivos políticos.
Do lado americano, a reação tenta desarmar o tema. No Fórum Econômico Mundial, em Davos, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou que a conversa sobre uma guerra comercial prolongada com a Europa é precipitada e classificou parte da reação pública como “histeria”. Bessent também minimizou a chance de a Europa usar instrumentos mais duros — incluindo a venda de Treasuries — e tratou o assunto como algo que tende a se resolver com negociação e “grupos de trabalho”, na lógica de funcionamento do bloco europeu.
A União Europeia discute retaliações tarifárias: a Reuters reportou que líderes europeus consideram tarifas sobre € 93 bilhões (US$ 108 bilhões) em produtos americanos, que podem entrar em vigor em 6 de fevereiro, após um período de suspensão.
Com informações do portal NeoFeed.