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Cliente de Jeffrey Epstein que esteve em João Pessoa disseminava racismo contra mulheres nordestinas
Termômetro da Política
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Um cliente do criminoso sexual Jeffrey Epstein esteve em João Pessoa em novembro de 2010 e comentou sua opinião de forma racista a respeito das mulheres nordestinas. Em conversa por e-mail com Epstein, o cliente, que teve sua identidade ocultada pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, relata ir para João Pessoa, depois, Recife, e, por fim, retornar a Natal. Ele menciona a rede de pedofilia gerida por Epstein ao se mostrar “muito feliz por ter conseguido essa garota”.

Jeffrey Epstein geria uma rede de pedofilia e tinha clientes do mundo inteiro
Jeffrey Epstein geria uma rede de pedofilia e tinha clientes do mundo inteiro (Foto: Divulgação/Netflix)

Confira o diálogo presente nos arquivos Epstein:

Oi
Sem internet no meu hotel. Tô muito feliz por ter conseguido essa garota. Ela vai vir com a mãe dela em janeiro. Vou pra João Pessoa hoje à noite, Recife. Volto pra Natal. Depois São Paulo, onde encontrei uma booker pra levar de volta pra NY. Eu queria também ir pro Rio, mas não sei se é o momento certo. Quando você volta pra NY? O norte do Brasil tem as mulheres mais feias do planeta.

E-mail enviado pelo cliente de Jeffrey Epstein (Imagem: Departamento de Justiça dos Estados Unidos)

Quem foi Jeffrey Epstein

Jeffrey Epstein (1953–2019) foi um financista e investidor americano que construiu uma fortuna significativa no mercado financeiro, mas ficou conhecido internacionalmente principalmente por seus crimes sexuais e pela rede de relações que mantinha com figuras de alto perfil em política, negócios, ciência e entretenimento.

Epstein começou a carreira como professor de matemática e física em uma escola de elite em Nova York nos anos 1970, mesmo sem ter concluído a graduação universitária. Depois passou a trabalhar em um banco de investimentos e, na década de 1980, fundou sua própria firma de gestão de patrimônio, a J. Epstein & Co., que atendia clientes com patrimônio extremamente elevado (ele afirmava aceitar apenas fortunas acima de US$ 1 bilhão).

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Ao longo dos anos 1990 e 2000, Epstein desenvolveu uma vida de luxo que incluía propriedades em Nova York, Palm Beach (Flórida), Novo México, Paris e uma ilha privada nas Ilhas Virgens Americanas chamada Little Saint James (apelidada pela imprensa de “Ilha Pedofilia” anos depois). Ele também possuía um Boeing 727 particular apelidado de “Lolita Express” por causa das denúncias de transporte de menores.

Em 2005, a polícia de Palm Beach começou a investigar Epstein após denúncias de que ele teria abusado sexualmente de uma menina de 14 anos. A investigação revelou dezenas de vítimas menores de idade recrutadas para massagens sexuais em troca de dinheiro. Em 2008, Epstein fechou um acordo polêmico com o Ministério Público da Flórida: se declarou culpado de duas acusações de prostituição (uma envolvendo menor) e recebeu uma pena de 18 meses de prisão, dos quais cumpriu apenas 13 meses, com direito a sair 12 horas por dia, 6 dias por semana, para trabalhar em seu escritório.

O acordo foi fechado pelo então promotor Alexander Acosta (que depois seria secretário do Trabalho de Trump). O caso gerou forte crítica por ser considerado excessivamente brando diante da gravidade das acusações.

Em julho de 2019, Epstein foi preso novamente em Nova York, acusado federalmente de tráfico sexual de menores e conspiração. A acusação apontava que, entre 2002 e 2005, ele teria criado uma rede de recrutamento de dezenas de meninas menores de idade para exploração sexual em suas propriedades em Nova York e na Flórida, pagando às vítimas para que recrutassem outras.

Epstein morreu em 10 de agosto de 2019 enquanto aguardava julgamento, na cela do Metropolitan Correctional Center, em Nova York. A causa oficial da morte foi suicídio por enforcamento, mas o caso gerou teorias conspiratórias e questionamentos sobre falhas de segurança na prisão (câmeras não funcionavam, guardas não fizeram ronda, etc.).

Arquivos Epstein e revelações posteriores

Após a morte de Epstein, dezenas de milhares de páginas de documentos judiciais relacionados a processos civis e criminais contra ele e sua associada Ghislaine Maxwell foram sendo liberados ao longo dos anos, especialmente a partir de 2019–2021 e com lotes adicionais em 2024 e 2025.

Esses arquivos — conhecidos coletivamente como “arquivos Epstein” — incluem depoimentos de vítimas, listas de contatos, registros de voos do “Lolita Express”, mensagens, e-mails e documentos de processos civis movidos por vítimas contra o espólio de Epstein e contra Ghislaine Maxwell (condenada em 2021 a 20 anos de prisão por tráfico sexual de menores).

Os documentos revelaram ou confirmaram contatos de Epstein com diversas figuras públicas de alto escalão, incluindo ex-presidentes dos EUA (Bill Clinton e Donald Trump), membros da realeza britânica (príncipe Andrew), cientistas renomados, advogados poderosos, banqueiros, empresários e celebridades. A maioria desses nomes aparece em listas de contatos, registros de voos ou menções em depoimentos, mas a presença em documentos não equivale automaticamente a participação em crimes.

Os arquivos também detalharam relatos de vítimas sobre abusos sistemáticos, redes de recrutamento de menores e pagamento de dinheiro em troca de sexo. Muitos documentos continham nomes de vítimas protegidos por pseudônimos ou redações, mas alguns nomes foram revelados ao longo do tempo por decisões judiciais.

Ghislaine Maxwell, principal associada de Epstein, foi condenada em dezembro de 2021 por cinco acusações relacionadas a tráfico sexual de menores e cumpre pena de 20 anos de prisão.

A liberação progressiva dos arquivos Epstein continua gerando repercussão jornalística e debates públicos sobre redes de poder, impunidade e responsabilidade de figuras influentes que mantiveram relações próximas com o financista antes de suas condenações.

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