O show de intervalo do Super Bowl apresentado por Bad Bunny neste domingo (8) transcendeu o entretenimento e se transformou em um evento político de repercussão internacional. O sucesso do astro latino, considerado o artista mais escutado do mundo atualmente, reacendeu o debate sobre políticas de imigração e identidade latino-americana nos Estados Unidos, especialmente após críticas públicas do presidente Donald Trump ao espetáculo.

O embate entre Bad Bunny e Trump expõe tensões mais profundas. O álbum mais recente e premiado do cantor porto-riquenho, Debí Tirar Más Fotos, tem como um de seus principais temas o orgulho da identidade latino-americana, em claro contraste com a agenda anti-imigração defendida pelo governo Trump.
O anúncio de Bad Bunny como atração principal, feito em 28 de setembro de 2025, gerou reação imediata do presidente americano. Em entrevistas e declarações públicas, Trump classificou a escolha como “absolutamente ridícula”, afirmou que nunca tinha ouvido falar do cantor e o acusou de “espalhar ódio” nas mensagens que transmite.
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As falas repercutiram amplamente nas redes sociais e na imprensa, ganhando destaque porque Bad Bunny é conhecido não apenas pela música, mas por sua posição política de valorização da América Latina e por críticas à política anti-imigração do governo Trump. O artista já se manifestou publicamente contra o ICE (agentes federais do Serviço de Imigração e Fronteira dos EUA). Em um discurso no Grammy, onde levou três prêmios, chegou a dizer no palco: “Fora, Ice”.
Antes do Super Bowl, um assessor da Casa Branca ameaçou enviar agentes federais de imigração ao estádio na Califórnia onde ocorreu a partida — ameaça inédita na história do evento. Embora não tenham sido registradas operações na porta do Super Bowl no domingo, a declaração foi interpretada como tentativa de intimidação ao enorme público latino de Bad Bunny.
Aliados de Trump também atacaram o fato de o show ser majoritariamente em espanhol, levantando questionamentos sobre identidade nacional e uma suposta “cultura americana”. Bad Bunny faz questão de cantar e dar entrevistas em espanhol — um posicionamento político para colocar em evidência o idioma falado na maior parte da América Latina.
Benito Antonio Ocásio Martínez é o nome real por trás de Bad Bunny. Ele é natural de Porto Rico, território americano desde o século XIX. Os porto-riquenhos têm cidadania norte-americana, mas não status político pleno: não votam para presidente nem para deputados, embora o Congresso dos EUA controle a ilha, incluindo Forças Armadas e relações comerciais internacionais.
No álbum mais recente, Bad Bunny critica esse status colonial com músicas que abordam protestos e luta por autonomia, como na canção “Lo que le pasó a Hawaii” (“O que aconteceu no Havaí”, em tradução livre, em referência à anexação da ilha pelos EUA).
Para especialistas, o confronto entre Trump e Bad Bunny simboliza um choque de visões de futuro: de um lado, um presidente nacionalista que defende uma identidade norte-americana homogênea; de outro, um artista que valoriza a cultura latina e as raízes de quem precisa deixar sua terra natal em busca de melhores oportunidades. O episódio reforça como ícones culturais podem se tornar instrumentos de mobilização política em um cenário de polarização.
Com informações do portal g1.