Lucas Pinheiro Braathen conquistou a medalha de ouro no slalom gigante dos Jogos de Inverno de Milão-Cortina 2026, tornando-se o primeiro brasileiro a subir ao pódio olímpico na neve. O feito colocou o país entre os medalhistas do Hemisfério Sul, ao lado de Nova Zelândia e Austrália.

Com o resultado, o Brasil superou o quarto lugar da Argentina no bobsled em St. Moritz 1928, até então o melhor desempenho sul-americano na história dos Jogos de Inverno. O pódio de Lucas Pinheiro Braathen se tornou o único da América do Sul em uma Olimpíada de inverno.
A trajetória de Lucas como atleta brasileiro começou após descontentamento com a confederação norueguesa, anúncio de aposentadoria, busca por maior liberdade e desejo de representar o país natal da mãe.
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Ele conquistou a primeira medalha em etapas de Copa do Mundo em Sölden, na Áustria, na temporada 2020/2021, aos 20 anos. Tornou-se campeão do mundo pela Noruega em 2023, mas os títulos já não o satisfaziam.
“Com destaque no cenário internacional, ele surpreendeu e anunciou a aposentadoria meses depois, com apenas 23 anos. ‘Muitos estranharam, afinal eu era muito novo e ainda tinha muito a fazer pelo esqui. Voltei atrás cinco meses depois, quando um caminho singular surgiu: defender as cores do Brasil, o país da minha mãe. Era a chance de escrever uma história e levar a bandeira das minhas origens ao topo do esporte de inverno’, disse, em 2024. ‘Assim que me tornei campeão do mundo com a Noruega no ano passado, parei e pensei: ‘Eu quero contar uma história maior. Eu quero ter voz para exaltar coisas que tenham mais importância do que o resultado de uma competição’”, relatou.
Os atritos com a confederação norueguesa de esqui ocorreram principalmente por questões comerciais. Ele era obrigado a utilizar os patrocinadores da entidade, apesar de estar sob contrato volumoso com a Red Bull.
“As arestas na relação passaram a aparecer e se tornaram um ingrediente considerável para o fim. ‘O vazio no meu coração após o título se uniu à insatisfação com a federação norueguesa de esqui. Não me sentia livre e decidi largar o esporte em outubro de 2023 para abraçar minhas outras paixões: música, arte, moda. Cinco meses depois, a chance de defender as cores da bandeira brasileira apareceu. Não pensei duas vezes. Agora, vou poder aparecer nas páginas dos jornais brasileiros e meu vovô Alberto e minha vovó Marcia vão poder celebrar o neto deles’, disse Lucas.”
O Brasil não ofereceu grandes recursos financeiros, mas garantiu independência e planejamento. A troca de nacionalidade gerou relação de via de mão dupla: liberdade para Lucas assinar contratos sem amarras da Confederação Brasileira de Desporto na Neve e visibilidade global para o esporte sem tradição em país tropical.
“Há pouco mais de dois anos ele declarou a aposentadoria. Tinha 23 anos e disse que tinha perdido o prazer de competir, que a confederação norueguesa não o estava tratando da maneira que achava que era adequada. Depois, nos procurou e falou sobre o interesse de voltar a competir. Estávamos acompanhando a carreira. À época, ele não tinha passaporte brasileiro. Deu entrada na papelada, conseguiu e iniciamos o processo para ele defender o Brasil”, explicou Anders Pettersson, presidente da CBDN.
“O que ele queria era, principalmente, liberdade para competir, para montar a equipe dele, ter patrocinador próprio. Falamos que daríamos liberdade, cuidaríamos da logística, inscrição, mas a equipe ele que teria de cuidar. Ele tem oito funcionários. O budget dele é de, mais ou menos, 1,5 milhão de euros (R$ 9,2 milhões) por ano. Dissemos que a CBDN não teria esse recurso, mas que iríamos dar uma ajuda pequena, via Comitê Olímpico do Brasil, e a grande parte ele teria de conseguir. Então houve uma mudança, da parte dele, de buscar patrocinador, coisa que ele não podia fazer na equipe norueguesa. Ele tem muito sucesso, muitos patrocinadores. O que a CBDN queria da parte dele? Que ele ajudasse a desenvolver o esporte alpino, fosse uma referência para outros atletas. E isso ele tem feito! Ele é muito acessível, contribui bastante para a CBDN. Os dois lados ganharam”, conta Anders Pettersson, presidente da CBDN.
Além da Red Bull, Lucas tem patrocínio da Visa, que anunciou parceria no ano passado, e da Corona Zero, que o nomeou embaixador para os Jogos de Inverno deste ano. Ele também atua como modelo e tem contrato com a marca italiana de luxo Moncler e uma linha própria de óculos de esqui da Oakley, entre outros.
O campeão olímpico quer aproveitar a “energia” brasileira para tentar mais uma medalha. Ele disputa o slalom masculino na manhã desta segunda-feira (16). A competição ocorre no Stelvio Ski Centre, em Cortina (ITA). A primeira descida será às 6h (de Brasília), e a segunda, às 9h30 (de Brasília) — a definição dos medalhistas ocorre ao final da segunda apresentação.
“Trazer toda a energia, todo o amor, felicidade que eu sinto agora. Vou canalizar todo esse amor”, disse.
Ao todo, três brasileiros estarão na prova: Lucas Pinheiro Braathen, Christian Oliveira Soevik e Giovanni Ongaro.
Com informações do portal UOL.