O aumento do preço do barril de petróleo, que chegou a quase US$ 120 — maior patamar desde o início da guerra na Ucrânia, em 2022 —, levou os ministros das finanças do G7 a se reunirem nesta segunda-feira (9) para avaliar respostas coordenadas à disparada dos preços provocada pelo conflito contra o Irã e pelo fechamento do Estreito de Ormuz.

As sete maiores economias industrializadas — França, Alemanha, Estados Unidos, Itália, Japão, Canadá e Reino Unido — analisaram a possibilidade de recorrer às reservas estratégicas de emergência, estimadas em 1,2 bilhão de barris, além de 600 milhões mantidos por obrigação governamental. Por enquanto, decidiram não liberar os estoques, optando por monitorar a situação.
“Ainda não chegamos lá [na liberação das reservas]. O que acordamos foi usar todas as ferramentas necessárias, se preciso for, para estabilizar o mercado, incluindo a possível liberação dos estoques necessários”, disse à Reuters o ministro da Economia francês, Rolando Lescure.
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O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã — por onde transita cerca de 25% do petróleo mundial — tem abalado os mercados financeiros, com bolsas caindo em todo o mundo. As retaliações iranianas contra alvos nos países do Golfo Pérsico também reduziram a oferta de grandes produtores como Bahrein e Catar.
“Além dos desafios da travessia do Estreito de Ormuz, uma parcela substancial da produção de petróleo foi reduzida. Isso está criando riscos significativos e crescentes para o mercado”, afirmou o diretor executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol.
A AIE estima que 80% do petróleo que transitou pelo estreito em 2025 teve como destino a Ásia. “No entanto, os impactos de uma interrupção prolongada no transporte marítimo seriam globais”, alertou a agência.
A diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos em Petróleo (Ineep), Ticiana Álvares, destacou que o mercado projetava, para 2026, um preço médio em torno de US$ 70 o barril. “Os mais impactados imediatamente devem ser, nessa ordem, Ásia e Europa. Só que, se o conflito se mantiver, se aprofundar, a tendência é que haja um impacto global de maiores repercussões”, comentou.
Ticiana Álvares observou ainda que a Petrobras pode se beneficiar como alternativa à redução da oferta do Oriente Médio e que a China poderia “segurar” a ausência do petróleo iraniano por cerca de dois meses. “A própria geografia do fornecimento do petróleo vai ser impactada. O Brasil pode ser uma alternativa para o fornecimento de muita gente, elevando ainda mais a produção no Brasil. Os EUA também são grandes fornecedores de petróleo, principalmente de derivados”, completou.
Sobre os estoques da AIE, a especialista avaliou que a medida teria eficácia limitada. “A medida estudada pelo G7 teria eficácia pequena porque isso sustenta por um tempo muito pequeno uma maior oferta de petróleo”, disse.
Autoridades iranianas atribuíram a alta dos preços aos Estados Unidos e a Israel, que iniciaram a agressão contra Teerã. O presidente do Legislativo iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou em rede social: “O impacto econômico dessa guerra, que se alastra para a infraestrutura em toda a região e no mundo, será vasto e duradouro. O preço do petróleo pode permanecer acima de US$ 100 por algum tempo. A política de Donald Trump pode levar à ruína não só a América, mas o mundo inteiro”.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, minimizou o impacto da alta: a subida do valor do barril de petróleo é um preço “muito pequeno” a se pagar “pela segurança e paz dos EUA e do mundo”. “Só os tolos pensariam diferente”, afirmou. Para Trump, os preços cairão assim que a “ameaça” do Irã for eliminada.
A França anunciou o envio de uma dúzia de navios de guerra e um porta-aviões para o Mar Vermelho, em operação “puramente defensiva” para garantir “a livre navegação e segurança marítima” perto do Estreito de Ormuz. O chanceler alemão, Friedrich Merz, manifestou preocupação com o aumento do preço da energia, e o governo de Berlim estuda regulação mais rigorosa para empresas petrolíferas por meio de limites ao reajuste de preços.
No Brasil, apesar do possível benefício à Petrobras como fornecedora alternativa, o país pode enfrentar inflação global ou recessão mundial caso o conflito se prolongue. Ticiana Álvares ponderou que a estatal tem condições de amortecer o impacto nos preços dos combustíveis. “A Petrobras tem condições de segurar a variação do preço de importação de derivados. É possível amortecer os efeitos dessa alta nas bombas de gasolina, pelo menos por um tempo, aqui internamente no Brasil”, disse.
A especialista alertou, contudo, que o amortecimento é limitado pela dependência de importação de derivados e pela existência de refinarias privatizadas. “A refinaria da Bahia, a Rlam, foi privatizada. Logo, você tem menos mecanismos de segurar o preço dessas refinarias que foram privatizadas do que, por exemplo, a Petrobras tem”, finalizou.
Fonte: Agência Brasil