O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta segunda-feira (16) que seria uma “honra” para ele “tomar Cuba”. A declaração marca mais um capítulo da escalada de pressão norte-americana sobre a ilha comunista, que enfrenta grave crise energética.

Cuba tem sido alvo da política de Trump desde seu primeiro mandato, entre 2017 e 2021, quando ele reverteu a abertura promovida por Barack Obama e endureceu as sanções contra o país. Ao retornar à Casa Branca no ano passado, Trump recolocou Cuba na lista de nações que patrocinam o terrorismo.
A pressão aumentou significativamente após a queda de Nicolás Maduro na Venezuela, em janeiro. Desde então, os Estados Unidos impediram que Caracas enviasse petróleo ou recursos financeiros à ilha. No fim daquele mês, Trump assinou decreto autorizando tarifas contra qualquer país que vendesse ou fornecesse petróleo a Cuba. A Casa Branca justificou a medida como necessária para manter a estabilidade no Caribe.
“Os Estados Unidos têm tolerância zero para as atrocidades do regime comunista cubano e agirão para proteger a política externa, a segurança nacional e os interesses nacionais”, afirmou a ordem assinada por Trump.
A medida foi interpretada como tentativa de sufocar a economia cubana. Ao mesmo tempo, o governo americano acusou a ilha de se alinhar à Rússia, à China, ao Irã e a grupos terroristas, representando ameaça à segurança nacional dos EUA.
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“Cuba é uma nação em crise, e é preciso ter pena do país”, disse Trump no dia seguinte à assinatura do decreto. “Parece algo que simplesmente não vai sobreviver. Acho que Cuba não vai sobreviver.”
Sem o fornecimento de petróleo venezuelano, a situação em Cuba deteriorou-se rapidamente. A ilha passou a enfrentar apagões frequentes, escassez de combustíveis e problemas no abastecimento de alimentos. A rede elétrica, que depende de combustível para gerar energia, foi uma das primeiras afetadas.
Especialistas ouvidos pela BBC afirmam que Cuba precisa de cerca de 110 mil barris de petróleo por dia, mas produz apenas 40 mil. Diante da crise, o governo cubano anunciou medidas de racionamento, priorizando setores agrícolas e o turismo. Havana também informou que pretende descentralizar a importação de combustíveis, manter a geração de eletricidade e reforçar investimentos em energia solar.
As medidas, porém, não foram suficientes para conter a crise. No sábado (14), manifestantes foram às ruas para protestar. Os atos, que começaram de forma pacífica, terminaram com o ataque a uma sede do Partido Comunista na região central da ilha e com prédios do governo sendo apedrejados.
Diante do agravamento da situação, o presidente cubano Miguel Díaz-Canel anunciou, na sexta-feira (13), o início de negociações com os Estados Unidos. “Essas negociações visam encontrar soluções, por meio do diálogo, para as diferenças bilaterais entre as duas nações”, disse ele em pronunciamento na TV.
Até então, o governo cubano negava a existência de encontros oficiais. Por outro lado, Trump afirmava desde janeiro que conversas estavam em andamento e que Cuba queria chegar a um acordo.
Apesar do contato, fontes indicam que ainda há diferenças significativas entre os dois países. Autoridades americanas afirmam que qualquer alívio da pressão depende de concessões políticas e econômicas de Havana.
O jornal The New York Times revelou nesta segunda-feira que o governo dos EUA está pressionando para que Díaz-Canel deixe o cargo para que as negociações avancem. Segundo o jornal, os Estados Unidos não exigem mudanças amplas no regime comunista nem ações contra membros da família Castro, que ainda têm influência política em Cuba.
Os cubanos reconheceram que a presidência de Díaz-Canel tem sido problemática, mas tentam encontrar uma forma de substituí-lo sem parecer que a decisão foi ditada pelos EUA. A proposta foi apresentada como um passo para facilitar acordos entre os dois governos, e não como um ultimato — diferentemente do que ocorreu na Venezuela.
Na avaliação de integrantes do governo Trump, a saída de Díaz-Canel poderia abrir caminho para reformas econômicas no país. Por outro lado, exilados cubanos e políticos americanos poderiam pressionar por mudanças mais amplas na ilha do que apenas a troca do presidente.
As conversas estariam sendo conduzidas sob coordenação do secretário de Estado Marco Rubio, filho de imigrantes cubanos e defensor histórico da queda do regime comunista na ilha. Assessores de Rubio estariam em contato com autoridades cubanas para discutir possíveis termos de negociação.
Em fevereiro, o site Axios afirmou que o próprio secretário estaria mantendo conversas secretas com Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto de Raúl Castro e sobrinho-neto de Fidel Castro, conhecido como “Raulito” ou “El Cangrejo”. Apesar de não ocupar cargo no governo, sua participação indicaria que a família Castro continua influente nas decisões políticas do país.
Ao jornal Miami Herald, o congressista republicano Mario Díaz-Balart disse que os Estados Unidos mantiveram contato com “diversas pessoas do entorno de Raúl Castro”, mas afirmou que não se tratava de negociações oficiais. Ele também não confirmou nomes.
Cuba, por sua vez, não informou oficialmente quem faz parte da delegação que negocia com os Estados Unidos.
Com informações do portal g1.