Celso Amorim, assessor especial de Lula para assuntos internacionais, tratou o Escudo das Américas como tentativa de cercar o Brasil. Em entrevista ao canal Tutaméia TV, no YouTube, afirmou: “Essa questão do Escudo das Américas põe o Brasil num cerco, cercado com base num argumento falso que é tratar a questão do crime organizado como se fosse terrorismo internacional”.

A aliança, liderada por Donald Trump, foi lançada em março com 14 países latino-americanos. O grupo apoiou sanções americanas a 24 grupos criminosos da região, entre eles o PCC e o Comando Vermelho, que a Casa Branca considera “narcoterroristas”. A ofensiva, parte da guerra do governo Trump ao crime organizado e ao tráfico, prevê restrições migratórias e congelamento de bens. O compartilhamento de inteligência e a coordenação de operações integram o esforço da Casa Branca para mobilizar a região em torno de uma política externa mais agressiva, inspirada na doutrina Monroe. A política do século 19 afirmava a primazia dos Estados Unidos sobre as Américas e é associada por críticos a intervenções. Trump passou a chamá-la de “doutrina Donroe”, trocadilho com o nome que ganhou espaço na mídia conservadora.
Favorite o Termômetro da Política no Google e acompanhe as notícias mais importantes para o seu dia
Para Amorim, governantes recentes dos Estados Unidos tentaram influenciar o Brasil, mas sem ameaça de intervenção. “Agora sim nós sofremos ameaças” disse. “Na realidade, é um esquema de dominação absoluta. O problema deles é a China”, afirmou.
O governo Lula se opôs à classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais, com o argumento de que isso permitiria ações americanas em território brasileiro e sanções a empresas nacionais. Especialistas em segurança também disseram que a mudança atrapalharia o combate às facções, ao alterar os protocolos de cooperação. Na quarta (7), Flávio Bolsonaro (PL) disse ao presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, que incluirá o Brasil no grupo se for eleito. “Eu vou com muita vontade e muita honra querer fazer parte também do Escudo das Américas, para fazer uma cooperação com a Colômbia e com os demais países que queiram se unir para combater essas facções narcoterroristas”, disse. Flávio é aliado de Trump e defende a classificação das facções como terroristas.
Leia também
Pesquisa aponta Lula à frente de Flávio Bolsonaro no segundo turno
O Escudo reúne 15 países: Estados Unidos, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Trinidad e Tobago. Trump lançou a aliança na Flórida, ao lado de líderes fortemente alinhados à Casa Branca. Colômbia e Peru aderiram depois, com a eleição de líderes de direita. Brasil e México, com governos de esquerda, ficaram de fora.
Em setembro, na ONU, Trump disse que usaria “poder militar incomparável para proteger os interesses nacionais vitais dos EUA” na região, caso necessário. Lula reagiu na abertura da Assembleia Geral e afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”, advertindo os países da região contra “tentações hegemônicas”. Outras ações do governo americano incluíram bombardeios a embarcações supostamente ligadas ao tráfico, pressão sobre Cuba e sobre o Brasil às vésperas das eleições, e maior cooperação com governos da região.
Com informações da Folha de S.Paulo.