A estreia da Acadêmicos de Niterói no Grupo Especial do Carnaval carioca terminou com rebaixamento nesta quarta-feira (18), após a apuração das notas na Marquês de Sapucaí, mas o que mais repercutiu foi a ala “neoconservadores em conserva”, que satirizou opositores do presidente Lula (PT) e gerou forte reação entre líderes evangélicos e figuras conservadoras.

Na descrição oficial do desfile enviada pela escola à Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro), a agremiação explicou que a ala representava “um grupo que atua fortemente em oposição a Lula, votando contra a maioria das pautas defendidas por ele, como privatizações e o fim da escala de trabalho 6x1”. As fantasias foram divididas em quatro perfis: representantes do agronegócio, uma mulher de classe alta, defensores da Ditadura Militar e grupos religiosos evangélicos.
A sátira ganhou visibilidade nacional depois que políticos conservadores, como os senadores Flávio Bolsonaro (PL/RJ) e Damares Alves (Republicanos/DF), além do deputado Sóstenes Cavalcante (PL/RJ) — líder do PL na Câmara —, publicaram imagens nas redes sociais exaltando famílias conservadoras dentro de latas, em resposta irônica à fantasia.
Líderes evangélicos ouvidos pela reportagem apresentaram visões distintas sobre o episódio. O pastor Pedro Barreto, da Igreja Comunidade Batista do Rio, no Rio de Janeiro, declarou que se sentiu “profundamente feliz” em ser classificado como conservador. “A Bíblia fala que temos que ser diferentes. A sociedade nos vê como pessoas que lutam por seus ideais. Não me senti ofendido porque sou conservador”, afirmou. Ele criticou ainda o tom confrontacional adotado por alguns evangélicos em relação ao Carnaval. “O crente está deixando de ser crente para ser belicoso, tudo é confronto, tudo é briga. Será que Jesus faria isso?”, questionou.
Já o pastor Oliver Costa Goiano, coordenador nacional dos Evangélicos do PT e ministro na Igreja Batista da Lagoa, em Maricá (RJ), reconheceu que o Carnaval é marcado pela ironia — citando que houve sátira também ao ex-presidente Jair Bolsonaro —, mas considerou que a ala extrapolou. “É um ambiente marcado pela ironia, também houve sátira com o ex-presidente Jair Bolsonaro. Mas os petistas e o presidente Lula não falariam dessa forma”, disse. Apesar da crítica, ele avaliou que as fantasias não devem alterar o voto evangélico. “A maioria dos evangélicos é conservadora e não acompanha o Carnaval”, afirmou.
O pastor Alexandre Gonçalves, da Igreja de Deus no Brasil, classificou a repercussão como “muito ruim” para a maioria dos evangélicos, especialmente em ano eleitoral. “Não é só culpa da escola de samba, porque o presidente estava ali, apoiando. Ele não é mal assessorado, ele está apostando no tudo ou nada”, declarou. Diretor do sindicato da Polícia Rodoviária Federal em Santa Catarina e ex-membro do Movimento Cristãos Trabalhistas, do PDT, Gonçalves destacou que o episódio alimenta narrativas de polarização. “Isso acaba alimentando narrativas de bolsonaristas, e temos que escolher um lado e apagar o fogo”, disse. Ele próprio publicou paródias nas redes sociais, associando as manifestações de políticos de direita a hipocrisia e acusações de corrupção.
Os três pastores coincidiram em um ponto: a fé evangélica não deve se misturar ao Carnaval, que consideram uma festa hedonista. “A gente aproveita o feriado para ir a retiro espiritual. Agora, não dá para impor isso aos outros. O país é diverso”, resumiu Gonçalves.
A ala “neoconservadores em conserva” surge em um contexto de avaliação negativa do governo Lula entre evangélicos: pesquisa Datafolha de dezembro apontou 49% de reprovação do desempenho presidencial nesse segmento. O episódio reforça como o Carnaval, tradicional espaço de sátira, continua a ser palco de embates ideológicos que extrapolam o Sambódromo.
Com informações da Folha de S.Paulo.