Uma empresa controlada pelo vice-presidente nacional do União Brasil e pré-candidato ao governo da Bahia, ACM Neto, recebeu R$ 3,6 milhões do Banco Master, de Daniel Vorcaro, e da gestora de recursos Reag, segundo relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão vinculado ao Banco Central.

Os repasses ocorreram logo após as eleições de 2022, em dezembro daquele ano, e se estenderam entre março de 2023 e maio de 2024. A empresa A&M Consultoria Ltda., da qual ACM Neto é sócio ao lado de sua esposa, foi constituída em 28 de dezembro de 2022, com capital social de R$ 2 mil. De acordo com dados da Receita Federal, a atividade principal declarada é “consultoria em gestão empresarial”, e a secundária é “apoio à educação”.
Entre junho de 2023 e maio de 2024, a A&M recebeu R$ 1,55 milhão em 11 repasses da Reag e R$ 1,34 milhão em nove repasses do Master, totalizando R$ 2,89 milhões. No mesmo período, ACM Neto recebeu da própria empresa R$ 4,2 milhões em 14 repasses. Antes disso, em março e junho de 2023, a A&M havia recebido R$ 422.325 mil do Master e R$ 281.550 mil da Reag.
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“Identificamos que, no período analisado, a empresa movimentou recursos expressivos, acima de sua capacidade financeira declarada”, diz o relatório do Coaf, órgão de inteligência financeira que atua na prevenção e no combate à lavagem de dinheiro.
Procurado por telefone, ACM Neto afirmou que só se manifestaria por meio de nota redigida com seu advogado. No texto enviado, o ex-prefeito de Salvador confirmou os pagamentos e explicou que, após deixar o cargo público, constituiu a empresa e passou a prestar serviços de consultoria a clientes, entre eles o Banco Master e a Reag. “Isto sempre ocorreu com contratos formais, com o devido recolhimento de impostos e trabalhos de consultoria efetivamente executados, notadamente relacionados à análise da agenda político-econômica nacional, e materializados em diversas reuniões com o corpo técnico e jurídico dos contratantes”, afirmou.
ACM Neto acrescentou que “no período do contrato, existia nada que desabonasse as empresas citadas, sendo ambas atuantes em segmento empresarial rigidamente regulado”. “Os serviços por mim prestados não envolveram qualquer tipo de irregularidade e não têm correlação com os temas que se noticia estarem sob investigação. Os honorários recebidos, os rendimentos declarados e os dividendos distribuídos são inteiramente compatíveis e congruentes, uma vez que, no mesmo período, foram prestados serviços de consultoria também a outros clientes. Vale frisar que tão logo cessou a prestação dos serviços, os contratos e pagamentos foram finalizados”, declarou.
O ex-prefeito concluiu que está “totalmente seguro em relação a estes fatos, haja vista não existir nada de errado”.
O Banco Master contratou uma rede de consultores e advogados para atuar no âmbito político e jurídico. O colunista Lauro Jardim, do GLOBO, revelou no ano passado que o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega foi contratado como consultor da instituição. Mantega conseguiu um encontro de Vorcaro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e atuou pela aprovação da operação de venda do banco ao BRB, instituição pública do Distrito Federal.
O ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski também prestou consultoria ao Master por indicação do líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner (PT-BA). O escritório do ex-magistrado passou a prestar serviços ao banco logo após sua aposentadoria do STF, em 2023. O contrato previa pagamentos mensais de R$ 250 mil e rendeu ao ex-ministro e ao seu filho R$ 6,5 milhões entre agosto de 2023 e agosto de 2025.
O escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, do STF, também foi contratado para auxiliar o Master em Brasília, conforme revelou a colunista Malu Gaspar. O acordo previa o pagamento de R$ 129 milhões em três anos e foi encerrado após a prisão de Vorcaro e a liquidação do banco.
O Banco Master tornou-se alvo de investigações da Polícia Federal após a descoberta de um esquema bilionário de fraude no sistema financeiro, com emissão de títulos de crédito sem lastro e operações irregulares que podem chegar a R$ 12 bilhões. O Banco Central decretou a liquidação da instituição em novembro de 2025. Na semana passada, Vorcaro foi preso pela segunda vez por determinação do ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo decisão do magistrado, o banqueiro mantinha um “braço armado” para intimidar adversários, com uso de “coação por meio de sua milícia”.
Com informações de O Globo.