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A lavanderia do senhor Crivella

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Prefeito do Rio, Marcelo Crivella, é acusado pelo Ministério Público por suspeita de lavagem de dinheiro. Ele é bispo licenciado da instituição religiosa.
Marcelo Crivella nega as acusações feitas pelo Ministério Público. (Foto: Tânia Rego/Agencia Brasil)

“Bilionárias movimentações atípicas”. Este foi o ponto de partida do Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) para apresentar as suspeitas de que a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) teria lavado dinheiro para o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos), que é bispo licenciado da instituição religiosa.

O órgão de persecução criminal diz ser “verossímil concluir” que a Igreja Universal está sendo “utilizada como instrumento para lavagem de dinheiro fruto da endêmica corrupção instalada na alta cúpula da administração municipal” do Rio. A denúncia tem como origem as bilionárias movimentações atípicas da instituição, comandada pelo bispo Edir Macedo, tio de Crivella.

O Ministério Público entende que a igreja está sendo usada como instrumento para lavagem de dinheiro fruto da endêmica corrupção instalada na alta cúpula da administração municipal” do Rio. As investigações foram iniciadas com a descoberta do “QG da Propina” na prefeitura. O esquema é investigado pelo MP-RJ.

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O relato foi enviado à Justiça pelo subprocurador-geral de Justiça de Assuntos Criminais e de Direitos Humanos do Ministério Público, Ricardo Ribeiro Martins. O documento de 262 páginas foi remetido em março deste ano. A investigação tem como base um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), órgão vinculado ao Ministério da Fazenda.

O COAF diz que a instituição religiosa “foi objeto de comunicação em razão da identificação de movimentações financeiras de R$ 5.902.134.822,00”, entre o dia 5 de maio de 2018 e 30 de abril de 2019. O relatório aponta “movimentações em espécie realizadas por clientes cujas atividades possuam como característica a utilização de outros instrumentos de transferência de recursos, tais como cheques, cartões de débito ou crédito”.

Outro elemento usado na análise do MPE-RJ são as mensagens do aparelho de celular apreendido, em março, com Rafael Alves, durante a primeira fase da operação. Apesar de não ter cargo público no Município, Rafael Alves teria enorme influência no governo – e pistas seguidas pelo MPE-RJ mostram que ele cobraria e arrecadaria propina de fornecedores, possivelmente com aval e em aliança com Crivella.

Rafael Alves enviou mensagem ameaçadora, em 2018, direcionada a aliados do prefeito. Nelas, ele reclamava da falta de espaço na administração municipal. Nelas, ele dizia que seria capaz de revelar às autoridades “todos os esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro que ocorrem no governo”, com a “direta participação de Marcelo Crivella, sua família e a igreja, em expressa alusão à Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd)”.

O celular de Rafael é considerado uma “peça bomba” na investigação pelos promotores. Mas não foi fácil chegar no aparelho. Em março, em uma busca contra Rafael Alves, ele entregou um celular vazio para as autoridades. Desconfiados, eles encontraram outro telefone escondido em roupas. Outros dois estavam no carro da mulher do operador, Shanna Garcia, filha do bicheiro Waldomiro Paes Garcia, o Maninho, assassinado em 2004.

Em nota, a Igreja Universal do Reino de Deus disse que não foi legalmente citada sobre as denúncias e que ignora a existência do documento relativo a elas. E classificou de imoral o que chamou de vazamento de informações por autoridades sem que a parte envolvida saiba da investigação. Diz ainda que toda sua movimentação financeira é “completamente lícita” e declarada aos órgãos competentes.

O prefeito Marcelo Crivella declarou que não há nada no processo que descreva qualquer ato ilícito praticado por ele. Disse ainda que nada foi encontrado nas buscas em sua casa, no gabinete, em banco ou no celular.