Professor, pesquisador, escritor e tradutor. Doutor em Ciência da Religião pela UFJF com pesquisa de pós-doutorado na UFPB. E-mail: danilo.smendes@hotmail.com
Professor, pesquisador, escritor e tradutor. Doutor em Ciência da Religião pela UFJF com pesquisa de pós-doutorado na UFPB. E-mail: danilo.smendes@hotmail.com
O banco Master e a normalização do escândalo
Compartilhe:
Estão sendo cumpridos 42 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro
(Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Talvez o que caracterize os grandes escândalos, como o do banco Master, seja sua estrutura interna: a cada nova descoberta, um novo escândalo, a cada novo fato, uma nova falcatrua, a cada furo de reportagem, um nível a mais na descida dos buracos. Em grandes escândalos, o poço parece não ter fundo. O problema disso, em primeiro lugar, é tornar o inaceitável como lugar comum, aquilo que o filósofo Slavoj Žižek chamou de “desacontecimentalização”, isto é, a anulação de um acontecimento. Diante de todas as maracutais fiscais, econômicas e legislativas, podemos perder o tato do escândalo, torná-lo lugar comum a ponto de outros esquemas espúrios se tornarem já algo comum.

Na luta contra isso, podemos retomar uma série de normalizações que dizem muito sobre quem somos enquanto sociedade. E aí vem uma hipótese: a história da humanidade é uma história do esquecimento. Aqui, esquecer não é apenas apagar da memória, mas justamente normalizar associações simbólicas que pertencem a uma só cultura e, em geral, beneficiam certos grupos em detrimento de outros: “A cidade não para, a cidade só cresce”… Um dos maiores processos simbólicos esquecidos e normalizados é o que está justamente no centro do escândalo do banco Master, o dinheiro. O valor de uma nota, pedaço de papel oficialmente impresso, é um símbolo: ele remete a algo que está para além dele, que lhe é exterior e que ele representa. É essa abstração simbólica que nos permite ir ao mercado e comprar tomates em vez de levar um saco de batatas para negociar o escambo diretamente com o agricultor. De fato, uma nota é só um papel; mas isso não impede que a nota de 2 reais possa ficar dobrada de qualquer jeito dentro de um bolso e a de 200 seja tratada com mais carinho.

O dinheiro, portanto, não é mais que um critério referencial para que possamos simplificar as nossas trocas, apesar de termos que complexificar para que ele dê certo. Se um saco de batata custa 20 reais e meio saco de tomate também, não preciso mais trocar dois sacos de batata por um de tomate: posso usar notas (ou pix) para isso. Inclusive, não é raro convertermos mentalmente qualquer quantia de dinheiro em uma unidade de medida relacionada a algo que nos diz respeito. Por exemplo: eu e minha esposa, professores, podemos converter um carro de 45 mil reais em mil horas/aula de 45 reais. Para comprá-lo, seria necessário guardar todo o salário de mil aulas — e talvez guardar outras mil para abastecê-lo, graças à arruaça que Donald Trump está promovendo no Oriente Médio. Já vi amigos fazerem essa conta com material de construção, processos judiciais e atendimentos fisioterápicos.

Por mais que a matemática não seja o meu forte, e nem o mais prazeroso dos hobbies, este é um exercício que eu recomendo diante de escândalos. A festa que o banqueiro Daniel Vorcaro organizou na Itália em setembro de 2023 contou com a participação de diversos artistas internacionais. Para assistir a um show da banda inglesa Coldplay, para ficar apenas na atração mais cara, Vorcaro pagou aproximadamente 59,7 milhões de reais. Ou: mais de 1 milhão e 300 mil aulas (recebendo 45 reais por aula). Considerando que um professor possa lecionar até 8 aulas em um dia (o que já é um número bastante exorbitante), ele precisaria trabalhar cerca de 454 anos ininterruptamente. Sem fim de semana nem feriado.

Apenas para colocar em perspectiva, o dinheiro que o banqueiro gastou com esse show é equivalente a apenas 0,001% do rombo que ele causou ao Fundo Garantidor de Crédito do Banco Central, de 51,8 bilhões de reais. Dinheiro nosso. Pense em sua profissão e faça uma conta rápida. É escandaloso o quanto uma pessoa pode acumular. Não há justificativa que normalize isso. O escândalo do banco Master deveria ser, também, para nos lembrar que a existência de bilionários é escandalosa. E que, enquanto houver pessoas que estejam dispostas a pagar 454 anos de salário de um professor por um show de poucas horas, nada nesse mundo pode ser justo.

Compartilhe:
Palavras-chave
banco master