
Minha experiência pesquisando religião, política e sociedade nos últimos anos me revela com cada vez mais clareza que, ainda que nossa sociedade ultrapasse certos conceitos religiosos que outrora eram estabelecidos como dogmas, a linguagem religiosa continua dando sentido a experiências de mundo, mesmo que elas estejam fora do campo religioso. Em outras palavras, o modo religioso de significar o mundo ainda age, ainda que o mundo não seja tão religioso quanto já foi. Isso não ocorre apenas quando políticos como Donald Trump usam Deus para justificar suas ações (ou para dizer que Deus está orgulhoso deles). Religião é mais do que a crença em um ou mais deuses, ela é também um conjunto de símbolos que se ajudam o ser humano a dar sentido para sua vida — e para tudo que ocorre nela.
Aqui, é preciso voltarmos algumas semanas para lembrarmos de um raio. Irônico o suficiente, o episódio da caminhada de Nikolas Ferreira serve para pensarmos nos simbolismos religiosos que permeiam o imaginário popular brasileiro. De um lado, temos a caminhada, a marcha empreendida por um deputado que sabe muito bem, ainda que não diga explicitamente, o que o movimento significa para o Brasil religioso: a fuga dos hebreus de seu período de escravidão no Egito, a marcha do povo em torno da cidade de Jericó para conquistá-la com a ajuda de Deus, a peregrinação do povo de volta para sua terra após ser levado em cativeiro para a Babilônia. O evento é irônico porque, ao mesmo tempo que buscava acessar esses símbolos direta ou indiretamente, teve de lidar com um contratempo bastante simbólico: um raio. No dia 25 de janeiro, no encerramento do ato, um raio caiu e feriu gravemente alguns dos caminhantes que se ajuntavam por ali. Se na fuga do Egito o povo contava com a ajuda de Deus que os guiava por meio de uma nuvem (no livro de Êxodo capítulo 13), à caminhada cristã de Nikolas Deus parece ter respondido com um raio.
Essa correlação direta que dá sentido religioso a fenômenos naturais não é facilmente assimilada como coerente. Ainda bem. Durante a última semana, minha cidade, Juiz de Fora, sofreu com tempestades que pareciam intermináveis. Claro, os desastres se concentram em algumas partes da cidade que têm maior propensão geológica a isso, em sua maioria áreas de risco que recebem a população com menor renda que para lá é empurrada pela especulação imobiliária. Porém, a cidade sofreu: pelas ruas barro, pelos olhares tristeza. As mais de 70 mortes e os mais de 10 mil desabrigados na região são a imagem de um sofrimento sem tamanho — respondido diretamente pelo voluntariado de outro milhar de pessoas que têm saído de seu conforto para ajudar no que for necessário.
No imaginário bíblico, as chuvas aparecem tanto como benção quanto como maldição. Em momentos de catástrofe, lembra-se do dilúvio e da arca, bem como do arco-íris que, nessa mitologia, seria o símbolo de que Deus não destruiria mais a terra por meio da água. Por outro lado, a água é aquela que traz vida, renova, irriga e fertiliza. Nem um sentido nem outro é suficiente para significar a tragédia que aconteceu na Zona da Mata mineira. Fato é que, por vezes, a realidade esgarça os sentidos predeterminados pelos símbolos e se colocam para além do que eles possam sugerir como sentido. Eventos como este não deveriam ser lidos como respostas de Deus a comportamentos morais nem como mal pedagógico, como alguns têm falado. Eles devem ser compreendidos em sua crueza mais dura: a mistura de mudanças climáticas, com a desenfreada busca pelo acúmulo de riquezas do capital, com a falta de políticas públicas específicas para pessoas que moram em áreas de risco. Apenas a seriedade de encarar uma tragédia pelo que ela realmente é poderá nos levar para fora do ciclo de interpretações religiosas feitas por políticos oportunistas — que culpam até Deus, mas não assumem responsabilidade pelo que poderia ter sido, no mínimo, aliviado.