Professor, pesquisador, escritor e tradutor. Doutor em Ciência da Religião pela UFJF com pesquisa de pós-doutorado na UFPB. E-mail: danilo.smendes@hotmail.com
Professor, pesquisador, escritor e tradutor. Doutor em Ciência da Religião pela UFJF com pesquisa de pós-doutorado na UFPB. E-mail: danilo.smendes@hotmail.com
Palantir: a distopia como ideal
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Peter Thiel
Peter Thiel, fundador da Palantir (Foto: Gage Skidmore/Wikimedia Commons)

No sábado, 18 de abril, a Palantir publicou em seu X (Twitter) uma espécie de resumo de sua obra-manifesto publicada no início do ano passado. Os pontos levantados por eles fazem parte de um projeto que não é apenas empresarial, mas um projeto político antidemocrático em sua origem. Antes que o/a leitor/a acredite que estou caindo em uma teoria da conspiração, vale lembrar que os fundadores da Palantir são hábeis conhecedores de filosofia e dominam bem o vocabulário da história ocidental do pensamento. O título do livro é: A República Tecnológica. Sim, uma referência à obra de Platão na qual ele diz que a democracia é o pior modo de governo possível. A proposta, então, é reconhecer que o avanço tecnológico é inevitável e que, em vez de lutar contra ele pela democracia, devemos esquecer a democracia em nome de uma nova forma de república.

A Palantir é uma empresa que trabalha diretamente para o governo dos Estados Unidos com tecnologia: ela desenvolve inteligência artificial generativa, análise big data e aprendizado de máquina. Parece que, a longo prazo, o objetivo da Palantir é tornar os EUA uma máquina tecnocrática que sirva aos monopólios empresariais, dos quais ela talvez queira ser o maior. A leitura do manifesto é perturbadora porque deixa bem claro o que cientistas políticos denunciam há muito: o divórcio entre capitalismo e democracia liberal é inevitável. Agora, vestida com as roupas da IA, a Palantir faz um manifesto político que coloca a cultura estadunidense como superior a outras, advoga contra a inclusão das diferenças e cultua um “Ocidente” e seus valores que nunca existiram de fato — a não ser na cabeça daqueles que o canonizaram durante as décadas de 30 e 40 na Itália e na Alemanha.

O manifesto, que chegou a ser um dos livros mais vendidos do mundo na época de seu lançamento, é enlouquecedor porque assume a distopia como ideal. Quem já leu 451 fahrenheit, 1984 ou O conto de Aia, por exemplo, sabe bem de qual lado deveríamos ficar em cada uma das situações. A Palantir diz, com praticamente todas as letras, que ela está do outro lado: dos que queimam livros, vigiam pessoas e violentam mulheres. E mais ela não se coloca como algo que pretende mudar uma distopia: mas construí-la. Hoje, talvez ela já seja uma das empresas mais poderosas e perigosas do mundo, justamente porque ela rompeu a barreira, há tanto mantida em suas fragilidades, entre o mundo do capital e o mundo político. Ainda que toda empresa tenha uma visão de mundo, a maioria delas preferia calar-se ou agir por baixo dos panos. A Palantir não quer apenas lobistas que representem seus interesses no congresso estadunidense: ela quer tomar o congresso e colocar suas IAs para decidir sobre o futuro da distopia.

Problemas distópicos exigem posições do mesmo nível. Angustiado e sem saber como lidar com um mundo que corre em direção à autodestruição, faço o que posso a partir do que minha imaginação permite. Rubem Alves dizia que a religião era como um morango à beira do abismo: a queda pode ser inevitável, mas a vida até ela não precisa ser totalmente sofrível. Penso o mesmo da leitura: ela nos ajuda a sofrermos juntos, diria Denise Fraga. Por isso, deixo aqui uma indicação de um livro que parece bastante propício para este momento em que, apesar de tudo, vivemos. Em A Grande Porção de Lixo Do Pacífico e outros contos (Editora DBA, 2024), Vinícius Portella nos leva a um futuro mais presente do que tudo, com histórias ora mais distópicas ora menos. A escrita leve, com humor tipicamente millenial, pesa a realidade técnica sobre nossas cabeças a ponto de atordoar a noite com tudo que pode acontecer e já tem espaço em nossos dias.

No conto “Estilhaço de explosão futura”, para mim o melhor do livro, nos deparamos com uma história que envolve Rolando, um advogado que é contactado para representar uma empresa de logística no Brasil, a Teqlo, essa empresa, e grupos quase conspiratórios que sabem do futuro: ela dominará o mundo e o transformará impassivelmente. Rolando, então, tem que escolher se fará parte da mudança ou se será contra ela. Desconfio que Vinícius Portella teve acesso privilegiado a algum futuro e escreveu em forma de conto um pedido de socorro. A distopia começou quando Rolando recebeu um e-mail e começou as tratativas. Ou será que começou quando Portella publicou seu conto? Ou quando a Palantir publicou seu manifesto? Ou quando você acabou de ler este texto e pensou que a Palantir pode ser a Teqlo da vida real?

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