Especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS) alertam que o risco de uma nova emergência de saúde pública de grandes proporções está aumentando de forma acelerada, enquanto os investimentos e as medidas de preparação para enfrentá-la permanecem estagnados ou em declínio. O cenário atual é considerado “alarmante” pelo Conselho Global de Monitoramento da Preparação (GPMB), grupo criado há oito anos pela OMS após a epidemia de Ebola na África Ocidental.

Segundo o relatório do conselho, “a preparação global não está acompanhando o risco de pandemia”. Os especialistas concluem que “o mundo não está mais seguro”, uma vez que o risco de novas pandemias está piorando, a confiança pública está se deteriorando e a desigualdade se aprofunda. O alerta surge um dia após a OMS declarar novamente uma emergência global devido a um novo surto de Ebola na República Democrática do Congo e em Uganda.
Desde a crise do Ebola em 2016, o mundo enfrentou cinco grandes emergências de saúde pública, incluindo a pandemia de Covid-19. Apesar de iniciativas como o Fundo para Pandemias e o Acordo de Resposta a Pandemias da OMS, os especialistas observam que o planeta está “mais volátil, incerto, complexo e ambíguo” do que há uma década. Há “sinais alarmantes” de que a resiliência pode estar enfraquecendo em vez de se fortalecer.
Os surtos de doenças infecciosas estão se tornando mais frequentes e mais impactantes, com aumento no número de casos e mortes. O impacto econômico das emergências de saúde também cresce, enquanto a equidade no acesso às medidas de resposta diminui. “Uma preocupante ‘fadiga da equidade’ está surgindo, marcada não apenas por um menor engajamento político e financeiro, mas também por um declínio nas ações para manter o acesso equitativo como uma prioridade global”, apontam os autores do relatório.
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O esforço global durante a pandemia de Covid-19, que permitiu o desenvolvimento rápido de vacinas, foi apenas uma ilusão de unidade duradoura. A ajuda ao desenvolvimento destinada à saúde retornou aos níveis de 2009. “Os investimentos em preparação se fortaleceram desde a pandemia de Covid-19, mas a mudança nas prioridades geopolíticas ameaça minar esse progresso”, destacam os especialistas.
Em seu discurso de abertura da 79ª Assembleia Mundial da Saúde, realizada em Genebra, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, reconheceu que o mundo vive “tempos difíceis, perigosos e profundamente divisivos”. Conflitos armados, crises econômicas, mudanças climáticas e cortes na ajuda ao desenvolvimento afetam as políticas globais de saúde.
Sem uma mudança radical na capacidade de lidar com os fatores que impulsionam as pandemias e sem um compromisso genuíno com a equidade, o mundo corre o risco de entrar em um ciclo de crises de saúde cada vez mais rápidas, em que cada novo choque corrói ainda mais a resiliência e aprofunda as fraturas existentes. A abordagem “Uma Só Saúde”, que reconhece a interconexão entre saúde ambiental, animal e humana, está sendo negligenciada, e a confiança e a equidade, fundamentais para a prevenção e o controle de doenças, estão sendo corroídas.
Os especialistas defendem ações imediatas para fomentar uma confiança ampla e duradoura, promover a equidade sustentável e combater a desinformação. Entre as propostas estão a criação de um sistema independente de monitoramento de risco de pandemia, o acesso equitativo a medidas de saúde, um compromisso político sustentado com a preparação para pandemias e financiamento sustentável para o chamado “dia 0”, o primeiro dia de uma nova emergência sanitária.
O recente surto de hantavírus em um navio de cruzeiro que atravessava o Atlântico serviu como lembrete de uma ameaça crescente: as doenças infecciosas zoonóticas, transmitidas de animais para humanos, têm aumentado nas últimas décadas, impulsionadas pelas mudanças climáticas e pela pressão humana sobre os ecossistemas. A comunidade científica estima que existam cerca de 10 mil vírus em mamíferos selvagens com capacidade de infectar humanos, a grande maioria ainda desconhecida.
Em 2024, a OMS detectou quase o dobro de emergências de saúde em comparação com 2015. Entre os patógenos de preocupação estão a Covid-19, o Ebola, o vírus de Marburg, o Nipah, o MERS-CoV, o SARS, o vírus Zika e a chamada “Doença X”, que representa um cenário de um patógeno ainda desconhecido capaz de causar uma grave epidemia internacional.
“Embora a carga habitual de doenças infecciosas esteja diminuindo, a frequência e a gravidade de emergências de saúde em larga escala estão aumentando”, alertam os especialistas. A pesquisadora María Paz Sánchez Seco, do Ciberinfec e do Centro Nacional de Microbiologia do Instituto de Saúde Carlos III, observa que os vírus sofrem mutações e evoluem, e que é essencial manter os sistemas de vigilância e resposta. “Isso pode acontecer, mas temos que conviver com isso sem medo. O essencial é manter os sistemas de vigilância e resposta”, afirmou.
Com informações da Unisinos.