Luísa é graduada e mestra em Letras. Escreve e pesquisa a intersecção entre literatura e feminismo. luisagadelha[a]hotmail.com
Luísa é graduada e mestra em Letras. Escreve e pesquisa a intersecção entre literatura e feminismo. luisagadelha[a]hotmail.com
Hesse, Martin e nossa indefinível natureza
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(Imagem: Reprodução)

Duas almas, ai!, moram no meu peito!” (Goethe)

Quase um século separa a publicação de dois livros tão distintos e ao mesmo tempo tão parecidos com os quais cruzei recentemente. O primeiro, O lobo da estepe, do escritor alemão Herman Hesse, lançado em 1927, conta a história de Harry Haller – repare nas iniciais do protagonista, as mesmas do autor –, homem culto, solitário e antissocial que trava conhecimento com um outro modo de vida, a partir da convivência com um grupo de pessoas boêmias. O segundo chama-se Escute as feras, foi publicado em 2019 pela antropóloga francesa Natassja Martin e relata o acontecimento, verdadeiro, do embate ocorrido entre Martin e um urso, em Kamtchátka, na Rússia, no qual Martin quase perdeu a vida.

O que essas duas narrativas, uma fictícia, outra real, uma urbana, outra selvagem, possuem em comum?

Harry Haller, o nosso protagonista de O lobo da estepe, cultiva a autonomia: sua independência reside na sua liberdade e, por isso mesmo, identifica em si próprio uma espécie de natureza conflituosa: de um lado, é um homem, ser racional, cercado de pensamentos, de arte, de erudição; de outro, debate-se internamente com um lobo, uma faceta sombria, obscura, na qual reinam instintos, selvageria e brutalidade. Harry vive nessa desarmonia grosseiramente separada em polos opostos: espírito e impulso.

O romance foi criticado justamente por exaltar as delícias da solidão e do cultivo da individualidade num padrão de vida burguês. Minha interpretação, pelo contrário, perpassa essa visão: à medida que Harry Haller se abre para outras pessoas, para a vida mundana, sua natureza altera-se, molda-se, e ele se dá conta de que a tão almejada unicidade da alma é um engodo; que há vários homens e vários lobos dentro de si, de forma que sua natureza confunde-se.

Saltemos noventa e dois anos: Natassja Martin, em expedição com os even, famílias que vivem no coração das florestas siberianas, luta com um urso. Nas palavras da antropóloga, “o acontecimento não é: um urso ataca uma antropóloga francesa em algum lugar nas montanhas de Kamtchátka. O acontecimento é: um urso e uma mulher se encontram e as fronteiras entre os mundos implodem. Não apenas os limites físicos entre um humano e um bicho que, ao se confrontarem, abrem fendas no corpo e na cabeça. É também o tempo do mito que encontra a realidade; o outrora que encontra o atual; o sonho que encontra o encarnado”.

Apesar dessa atmosfera quase mística, Martin não se rende ao sobrenatural: descreve com solidez, sem romantizações nem idealizações, o violento embate que lhe estalou o crânio, lhe fraturou o maxilar e lhe fez passar por uma série de cirurgias, na Rússia, em Paris e em Grenoble, entre a vida e a morte. E, no entanto, a experiência lhe transformou a vida: Martin se refere ao urso como “meu urso”, relata como, a partir das “minhas mãos nos seus pelos e seus dentes na minha pele, passamos por uma iniciação mútua; uma negociação a respeito do mundo no qual vamos viver”. Martin vive uma reestruturação do próprio mundo para, enfim, poder compreender a si mesma.

Após o evento, os even comunicam a Martin que ela passou a ser uma miêdka, está dividida meio a meio, que os sonhos do urso agora são também dela, e os dela são dele. Ambos sonham juntos e separados, compartilhando de um único universo onírico.

Chegamos, então, às semelhanças que podemos extrair dos dois livros. Ao fim e ao cabo, ambos clamam, nas entrelinhas, contra a falsa dicotomia que os homens – e aqui faço questão de utilizar o substantivo masculino – têm se empenhado em criar: natureza versus cultura, meio ambiente versus humanidade, como se nós vivêssemos apartados da natureza, não fizéssemos parte dela e não fôssemos, afinal, também animais.

Falam, ainda, sobre como é perfeitamente possível cultivar a solidão e, simultaneamente, amar o coletivo (e aqui, por coletivo, me refiro tanto aos homens quanto à natureza pois, como já disse, não são coisas separadas). Não vejo como duas questões antagônicas, muito menos excludentes. Um razoável equilíbrio entre ambas, aliás, parece-me o mais sensato caminho a ser percorrido. O lobo, antes visto como um caçador solitário, também vive em matilha. No final, escutar e crer (o título original do livro de Martin, em francês, é Croire aux fauves) no que dizem as feras (todas elas!) parece-nos uma boa saída.

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