Jornalista e doutoranda em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais pela Universidade do Porto (PT). Autora do livro Flores nos Canteiros (A União, 2018). Interesse em temas sobre feminismo, viagens, comunicação e redes sociais. flavia.lopes.sn[a]gmail.com
Jornalista e doutoranda em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais pela Universidade do Porto (PT). Autora do livro Flores nos Canteiros (A União, 2018). Interesse em temas sobre feminismo, viagens, comunicação e redes sociais. flavia.lopes.sn[a]gmail.com
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O melhor ombro para chorar o fim do mundo é de uma mulher
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(Foto: Nai Corrêa/Flickr)

É depois do fim do mundo, quando a casa cai, quando o barraco desmorona, quando não se sente o chão para pisar e, às vezes, mal se sente o ar para respirar que os instintos mais ancestrais se manifestam. Foi nesse momento que percebi que essa história de mulheres inimigas e rivais não existe. No momento que eu mais precisei, os meus melhores colos, os ombros mais confortáveis para o meu choro foram femininos.

Eu já tinha essa clareza antes. Minhas amizades mais próximas e íntimas sempre foram femininas. E eu sempre estranhava quando meninas diziam “eu confio mais em homens do que em mulheres”. Não as recriminava, mas notava a influência pesada do patriarcado em suas palavras.

Mas, foi quando vim morar em Portugal que me dei conta de como, nós mulheres, nos protegemos e de como nossas relações não são apenas afetivas: são instintivas. Quando uma mulher acolhe a outra, não é só afeto, é uma pulsão natural, e ouso dizer que até biológica. É a proteção do semelhante. Ou mesmo o acolhimento do espelho. Até porque compartilhamos das mesmas dores, os mesmos preconceitos e das mesmas cansativas e exaustivas situações que o patriarcado nos assola.

Quando me separei, não tinha para onde ir e fui acolhida na casa de uma amiga, no seio de sua família. Ela, mal me conhecia. Éramos amigas há apenas três meses – se não me falha a memória – e ela não hesitou em me acolher em sua casa. Talvez eu não tenha manifestado o tamanho da minha gratidão por ela, mas foi graças à sua acolhida que não desisti. Eu chorava de dia, de noite e era o abraço dela que me acolhia. Eu, do outro lado do oceano, distante de toda a minha rede de apoio, de toda a minha família e das minhas amizades mais íntimas, pude encontrar colo num abraço feminino. Tão familiar. Era um abraço ancestral. Parecia que todas as mulheres do mundo me acolheram ali.

Fosse em Guimarães, onde eu morava na época, ou em Braga, cidade vizinha que eu constumava viajar, só resisti pelo apoio das minhas amizades. A maioria feminina. Muitas me acolheram em dormidas em suas casas, dividiram cafés, cervejas, vinhos e papos. Assim fui seguindo.

Em uma viagem a Coimbra fiquei na casa de uma amiga da faculdade, fazia tanto tempo que não a via e reencontrar uma pessoa conhecida em meio a tantos desconhecidos aqueceu meu coração. Eu não contei a ela que era meu aniversário. Completava 30 anos. Não estava nos meus melhores dias. Mas, mesmo assim, ela descobriu e fez uma surpresinha para mim. Quanto amor! Fui tão acolhida ali em Coimbra que acho que foi por isso que escolhi essa cidade para morar, tempos depois.

Nessa mesma viagem, conheci outras duas mulheres incríveis. No dia do meu aniversário. Que era também o aniversário de uma delas. Essa simplesmente dividiu toda a sua festa comigo. Era a primeira vez que eu a via na minha vida. E ela me acolheu de um jeito que eu nem consigo descrever. Eu estava sozinha ali no meu aniversário. Sem meus amigos próximos e sem a minha família. Mas me senti tão acolhida por ela. Foi também um acolhimento ancestral. Hoje é a minha grande amiga e sempre combinamos de dividir o aniversário, já que nascemos no mesmo dia. Aqui em Portugal é minha parceira em tudo.

Durante essa mesma festa, em um breve momento, recebo a ligação da minha avó. Não aguento e choro ali mesmo. Outra mulher, hoje também uma grande amiga, me abraça e diz que sente o que eu sinto. O acolhimento e a identificação foi tão grande. Era o primeiro dia que nos víamos. E ela já me convidou para o seu casamento. Meses depois eu estava lá presenciando e compartilhando essa felicidade com ela.

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Mais tarde, mudei de Guimarães para Figueira da Foz porque arrajei um emprego melhor por lá, mas não conhecia ninguém. Ninguém mesmo. Entretanto, fui apresentada a um pessoal da minha igreja que morava perto de mim. Era uma família bonita, jovem, formada por pai, mãe e uma linda menina de 1 aninho, todos me acolheram prontamente. Como eu não tinha amigos na cidade, eles fizeram de tudo para eu me sentir bem-vinda. Sempre chamavam-me para jantar em sua casa e no final, o pai colocava a criança para dormir e a mãe, mesmo cansada, com sono, ouvia minhas histórias e topava sempre mais uma taça de vinho comigo. Eu, a minha amiga, uma garrafa de vinho, nós duas chorando de mãos dadas à mesa, é uma das memórias mais bonitas que tenho dessa época.

Em Figueira da Foz também conheci outros colos acolhedores. Uma amiga do Brasil dividiu choro, confidências, risos e vinho por muitas e muitas noites. Ela me inspirou a cozinhar e, até hoje, toda vez que faço algo para mim ou para qualquer outra pessoa na cozinha procuro seguir o seu exemplo de fazer esse momento um instante de presença.

Outras duas amigas do Brasil também fizeram de tudo para me acolher em Figueira da Foz. Eram mais velhas e eu escutava suas histórias e conselhos de grande sabedoria com muita atenção.

Um dia, no trabalho, eu disse que estava de aviso prévio, e uma colega, que falava pouco comigo, pois éramos de setores diferentes, disse que ia me levar a um tour pela cidade, pois de acordo com seu rápido inquérito sobre a cidade de Figueira da Foz, viu que eu não conhecida nada da região. Pouco falávamos, mal nos víamos, e dias depois estávamos passeando juntas. Ela me apresentou cachoeiras e a vista mais linda da cidade. Outro acolhimento ancestral.

Passado um tempo, viajei ao Brasil e quis iniciar minha vida de imigrante em Portugal do zero. Se não fosse pelo acolhimento de outra amiga portuguesa a realização desse projeto seria muito mais difícil. Ela ofereceu-me um quarto assim que voltei da viagem enquanto eu não encontrasse um lugar definitivo para viver. A ela devo mais esse acolhimento e também ao nascimento de um amor por gatos.

Além de todas essas novas amigas, minha rede de apoio nessa minha vida de imigrante, ainda contei com o acolhimento das minhas antigas amigas, de longe. Eram ligações intermináveis que a cada vez me provavam ainda mais o quanto é necessário uma rede de apoio feminina para nós mulheres.

São inúmeras as mulheres essenciais na minha vida. Da minha existência até hoje é impossível falar de cada uma. Mas, posso afirmar com certeza que a maior parte da minha rede de apoio é formada por mulheres. Sou grata a todas elas. Às dentro da família, às amizades da infância, da adolescência, da vida adulta, no Brasil, Portugal, Espanha, França e de outros lugares do mundo. E por isso pergunto-me: onde eu estaria se não fosse todo esse acolhimento afetivo, ancestral, no abraço amigo feminino? Certamente em outro acolhimento feminino. O mais provável seria o colo da minha mãe. Por isso que digo: o melhor ombro para chorar o fim do mundo é o de uma mulher.

O patriarcado – supremacia masculina em detrimento do gênero feminino – tentou sabotar isso, o que deu lugar a um mito da rivalidade feminina. Engraçado, entretanto, é perceber o quão paradoxal é a cultura patriarcal, ou seja, as imagens femininas e suas representações variam de acordo com o interesse da época.

Por exemplo, nos períodos pré-históricos as mulheres representavam esse lugar de acolhimento, justamente porque ficavam no lar, cuidando e protegendo os filhos e o coletivo da unidade familiar, enquanto os homens saíam para caçar. Entretanto, no contexto mais moderno, atendendo às necessidades do capitalismo e da manutenção da propriedade privada – já que o casamento nasceu para a perpetuar não só uma linhagem, mas também uma herança de bens materiais – as mulheres precisavam representar essa imagem de rivalidade e disputar a atenção do melhor pretendente. Para o contexto familiar, da mulher já com uma família, somos o acolhimento. Livres e solteiras, somos ameaça. É só ver clássicos da Disney como Cinderela, em que jovens disputam pelo príncipe, a Bela Adormecida que é enfeitiçada pela bruxa má, ou a Branca de Neve perseguida pela madrasta invejosa, por exemplo, para perceber esses estereótipos.

De um ponto de vista sociobiológico, partindo de uma perspectiva tradicionalista e que consolida o patriarcado, esse acolhimento feminino é mesmo entendido a partir de um evolucionismo. De acordo com E. O. Wilson, grupos que praticavam a divisão sexual do trabalho, em que a mulher cuidava dos filhos, possuíam vantagem evolutiva, pois tal comportamento compõe uma herança genética, ou seja, o altruísmo, a lealdade e o maternalismo encontra-se na genética feminina como ferramenta para perpetuar a espécie. Mas, os tempos mudaram! Essa teoria funciona para os dias de hoje?

Gerda Lerner, feminista e que foi historiadora e professora emérita de História na Universidade de Wisconsin, autora do livro A Criação do Patriarcado: História da Opressão das Mulheres pelos Homens (2020), contradiz essa visão tradicionalista.

Ela diz:

[…] os tradicionalistas esperam que as mulheres tenham os mesmos papéis e ocupações que eram funcionais e essenciais à espécie no Período Neolítico. Aceitam as mudanças culturais pelas quais os homens se libertaram da necessidade biológica. A substituição do trabalho físico pelo trabalho de máquinas é considerada progresso; apenas as mulheres, sob o ponto de vista deles, estão condenadas pela eternidade a servir à espécie por meio de sua biologia. Afirmar que, de todas as atividades humanas, apenas os cuidados fornecidos por mulheres são imutáveis e eternos é, de fato, destinar metade da raça humana a uma existência inferior, à natureza em detrimento da cultura.

Mas, em um ponto os tradicionalistas estão corretos: o acolhimento feminino entre si é sobrevivência. Mas não a sobrevivência pré-histórica, contra os predadores, mas sim contra um bicho bem pior: o machismo. Nos tempos de hoje, acolhemo-nos, mutuamente, porque só nós sabemos o que é ser mulher num mundo tão patriarcal. É instinto de sobrevivência sim. E é auto salvação. Porque para cada mulher que nós acolhemos, abraçamos e protegemos a nossa ancestralidade feminina e perpetuamos, não apenas nossa espécie, mas nosso sentido de viver. Até porque, citando a minha mãe, nós mulheres somos a essência da humanidade.


Texto alterado às 8h03 do dia 12.03.2023 para acréscimo de informações.

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8 de março