Mesmo à frente nas intenções de voto, o senador Cleitinho não será candidato ao governo de Minas Gerais por decisão do Republicanos. O parlamentar, no entanto, declarou que disputa o cargo. Pela legislação eleitoral, ele não pode trocar de legenda neste momento. Sua assessoria ainda não informou se permanece no partido.

Até o impasse desta quarta-feira (29), a possível candidatura foi marcada por sucessivas idas e vindas. Interlocutores e adversários atribuem a indefinição à hesitação em assumir a disputa e ao receio de administrar um estado com dificuldades fiscais.
O Republicanos anunciou a pré-candidatura de Cleitinho em 2 de março deste ano. Com mais de 4 milhões de votos para o Senado em 2022, o senador era visto como um trunfo para a legenda nas eleições proporcionais, nas quais os votos ajudam a definir tanto os eleitos quanto o número de cadeiras de cada partido.
Cleitinho passou a ser considerado capaz de ocupar o espaço da direita mineira diante do desgaste do governo Romeu Zema e do menor conhecimento do eleitorado sobre Mateus Simões (PSD), atual governador e candidato à reeleição.
Favorite o Termômetro da Política no Google e acompanhe as notícias mais importantes para o seu dia
Ainda no fim de fevereiro, antes do anúncio oficial, o senador condicionou a candidatura a estar na frente nas pesquisas e à desistência do deputado Nikolas Ferreira (PL). Desde o início, o meio político duvidava da manutenção do nome. A situação fiscal de Minas é considerada crítica e terá de ser enfrentada pelo governador eleito, com risco de perda de popularidade. O estado tem uma das maiores dívidas com a União, tema que influencia investimentos, obras, reajustes salariais e as contas públicas.
Em 1º de abril, Cleitinho publicou vídeo nas redes negando desistência. “Estão falando que eu vou desistir. Será”, afirmou em frente ao Congresso Nacional, enquanto performava um jogador de futebol aquecendo antes de entrar em campo.
Em 10 de junho, voltou à tribuna do Senado para tratar do tema. “O que mais me chama a atenção por conta de alguns políticos que ficam soltando isso em Minas Gerais, falando: ‘O Cleitinho está com medo de pegar um estado quebrado’, é que são os mesmos que quebraram o estado e querem continuar tomando conta dele”, afirmou.
No mesmo discurso, condicionou novamente a candidatura às pesquisas: “Eu quero deixar bem claro que não tem nada, que eu não desisti, que não tem nada disso. Se for da vontade de Deus, como eu já cansei de falar, e da vontade do povo – liderando pesquisa –, claro que eu quero ser um pré-candidato a governador. Mas depende de Deus e depende do povo, é o povo que vai decidir”.
Leia também
Compositor vencedor do Oscar, Glen Hansard morre em acidente de moto
Com o apoio de Mateus Simões à candidatura de Romeu Zema e a desistência de Nikolas Ferreira, o PL precisava de um palanque em Minas para Flávio Bolsonaro. O partido negociou apoio a Cleitinho, mas integrantes da Executiva Nacional ouviram que o senador só decidiria “depois da Copa do Mundo”.
O Brasil foi eliminado pela Noruega em 5 de julho, mas Cleitinho manteve silêncio. Na ocasião, o presidente do diretório estadual do Republicanos, deputado Eclydes Pettersen (REP-MG), disse que a candidatura estava confirmada.
Em 8 de julho, o senador voltou ao plenário e afirmou que poderia decidir só em 5 de agosto — último dia das convenções. Também criticou o presidente estadual do partido. “Se eu cheguei até aqui agora, foi Deus que me colocou aqui. Não foi grupo político, partido, dinheiro, empresário… Foi o povo que me colocou aqui. Se o Espírito Santo tocar meu coração e mandar eu vir, é o Espírito Santo e Deus que estão mandando eu vir”, declarou.
Em 18 de julho, Cleitinho perdeu o irmão mais novo, Matheus Azevedo, vítima de leucemia. A interlocutores, teria dito que não tinha cabeça para fazer campanha e que estava de luto, sem sair de casa.
No sábado (25), o Republicanos realizou a convenção estadual, oportunidade de confirmar o nome. Cleitinho não compareceu. Diante das incertezas, PL e Republicanos passaram a negociar apoio a Marcelo Aro (PP).
A indefinição persistiu até a pesquisa Quaest de terça-feira (28), que colocou Cleitinho na liderança. Após o resultado, o senador voltou a sinalizar possível aceitação.
Na manhã desta quarta (29), o presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira (REP-SP), afirmou à GloboNews que Cleitinho não será candidato. Pouco depois, as executivas nacional e estadual divulgaram nota atribuindo a decisão à falta de definição clara e afirmando que a ausência na convenção produziu “consequências inevitáveis”.
Cerca de 40 minutos depois, a assessoria de Cleitinho soltou nota contradizendo o partido e afirmando que o senador continua disposto a disputar o Palácio Tiradentes.
A divergência ocorre sob as regras do calendário eleitoral. Embora senadores possam mudar de partido sem depender da janela partidária, a legislação exige filiação à legenda pela qual pretendem concorrer pelo menos seis meses antes da eleição. Em 2026, esse prazo terminou em 4 de abril.
A janela partidária permite a deputados federais, estaduais e distritais trocarem de partido sem risco de perder o mandato. A regra não se aplica a senadores, governadores, prefeitos e presidente. Mesmo assim, candidatos precisam estar filiados dentro dos prazos definidos pela Justiça Eleitoral.
O sistema brasileiro não admite candidaturas sem partido. O interessado precisa estar filiado e ter o registro feito pela legenda. Na prática, uma eventual candidatura de Cleitinho teria de ocorrer pelo Republicanos, partido ao qual estava filiado quando se encerrou o prazo.
A definição do candidato a governador é estratégica porque afeta a organização das campanhas proporcionais, inclusive a confecção de materiais gráficos, que exige o nome e o número da chapa previamente estabelecidos.
Com informações do portal g1.