A entrevista concedida pelo filósofo e apresentador Francisco Bosco, conhecido como Chico Bosco, à Veja São Paulo, publicada neste mês, gerou uma onda de críticas nas redes sociais, especialmente entre feministas e ativistas de direitos das mulheres. No texto, intitulado “Francisco Bosco: ‘Há uma confusão entre a crítica ao machismo e a crítica aos homens‘”, o ensaísta discute a “nova masculinidade” e defende um “ajuste no discurso feminista”, argumentando que ele deveria enfatizar uma “agenda positiva para os homens, em vez de ficar insistindo em uma estigmatização, uma criminalização e um rebaixamento sistemático dos homens”. Bosco ainda afirma que “é preciso entender que os homens estão passando por uma crise e que ajudá-los a atravessar essa crise não significa minimamente relativizar a força do discurso feminista”.

A publicação coincidiu com uma sequência de casos de feminicídio que abalaram o país, como os assassinatos de Allane Pedrotti e Layse Costa Pinheiro, vítimas de um homem que não aceitava ser subordinado a mulheres, e o caso de uma mulher arrastada por ex-namorado até perder as pernas. O timing agravou as reações, com trechos da entrevista sendo compartilhados no Instagram e Twitter (X) por influenciadoras e ativistas, acompanhados de legendas de indignação. “Estaríamos fodidas sem o Chico Bosco?”, ironizou a colunista Joanna Moura, da Folha de S.Paulo, em texto publicado na terça-feira (9), destacando o cansaço com a “relativização que frequentemente aparece no discurso de homens ditos progressistas”.
Feministas acusaram Bosco de minimizar o machismo estrutural e de confundir crítica ao patriarcado com “ataque aos homens”. A atriz Alice Carvalho, conhecida por papéis em “Renascer” e “O Agente Secreto”, comentou publicamente que na entrevista ele “só falou bosta”, o que escalou a discussão. Outras vozes, como a da colunista Camila Pizzolotto, no ICL Notícias, criticaram o texto como “ruim em qualquer momento”, citando o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher, que registra uma média de quatro feminicídios por dia em 2024.
Nas redes, hashtags como #ChicoBosco e #MachismoNãoÉCrise viralizaram, com milhares de posts condenando o que chamavam de “defesa velada do machismo”. Usuárias relataram fadiga com aliados masculinos que, segundo elas, “diminuíam a opinião das mulheres, tachando-as de emocionais demais”. Um post no Instagram de uma ativista feminista acumulou mais de 5 mil curtidas: “Em meio a feminicídios diários, ele fala de ‘crise dos homens’? Isso é gaslighting puro”.
Em resposta, Bosco publicou um vídeo de nove minutos no Instagram, se colocando como vítima de “ataques” e “clickbait“. “Quando dei a entrevista, ainda não tinha acontecido a série de terríveis episódios de feminicídio… Manifesto meu mais contundente repúdio”, disse ele, culpando a manchete da Veja por distorcer suas palavras. O filósofo citou o comentário de Alice Carvalho como exemplo de “agressividade”, chamando-a de “excelente atriz, mas sempre agressiva” e “degradante”, o que levou a uma troca de farpas. “O debate público se faz com argumentos. Não é para aceitar isso, mesmo que venha do seu grupo”, rebateu ele, antes de bloquear a atriz.
Bosco apagou o vídeo no dia seguinte, na quarta-feira (10), e postou um novo desabafo, reiterando solidariedade às mulheres: “Sempre me solidarizei com as mulheres contra isso (é incrível ter que escrever isso)… A lógica do clickbait prevaleceu e deram uma manchete que foi como jogar um pedaço de carne sangrando em alto mar. Não tenho controle sobre isso”. Ele se disse “não ofensivo por feitio, a não ser em reação a ataques”, e lamentou o “novo crime” de ser mal interpretado. Amigos como Fábio Porchat comentaram em apoio: “Perfeito posicionamento”.
Alice Carvalho, procurada pelo Metrópoles, optou pelo silêncio: “Não vou me pronunciar sobre a polêmica”. A treta dividiu opiniões: enquanto alguns defenderam Bosco como “vítima de linchamento virtual”, outros o acusaram de “se vitimizar para desviar do machismo velado”. No O Antagonista, Gustavo Nogy ironizou: “Se o discurso feminista é um monólogo de promotoria, uma catilinária feita de dedos em riste, não há diálogo possível”.
A repercussão expôs tensões entre aliados masculinos do feminismo e o movimento, com debates sobre “lugar de fala” e o papel de homens em pautas de gênero. Bosco, que participa do “Papo de Segunda” no GNT, usou o episódio para reforçar sua visão de um “debate democrático”, mas as críticas persistiram, com posts no X questionando se sua “crise masculina” ignora o terror diário das mulheres.