A Anvisa determinou o recolhimento imediato de detergentes, sabões líquidos para roupas e desinfetantes da marca Ypê, de todos os lotes com numeração final 1. A medida inclui a suspensão da fabricação, comercialização, distribuição e uso de 23 produtos da linha, com determinação para que sejam descartados junto à marca. A Química Amparo, responsável pela produção, foi obrigada a interromper imediatamente a fabricação.

A decisão foi tomada após a identificação da bactéria Pseudomonas aeruginosa nos lotes afetados. Especialistas ouvidos pela Folha classificam a disseminação em larga escala desse microorganismo como um grave problema de saúde pública.
Presente em ambientes hospitalares, a Pseudomonas aeruginosa é até cem vezes mais resistente a antibióticos do que bactérias comuns. Em casos graves, como infecções na corrente sanguínea ou pneumonia associada à ventilação, a taxa global de mortalidade varia de 32% a 58%.
Em ambiente doméstico, o contato com a bactéria pode provocar irritação na pele, alergias, coceiras, ardências nos olhos, problemas respiratórios e dermatite, caracterizada por coceira, vermelhidão e descamação, segundo a biomédica Daiane Ribeiro, que atuou por dez anos na Unilever.
A bactéria é oportunista: causa infecções quando encontra brechas nas defesas naturais do organismo, atingindo principalmente imunossuprimidos, pacientes com HIV, câncer, transplantes, internados em UTI e idosos. Em pessoas saudáveis, o sistema imunológico e barreiras como pele e mucosas costumam impedir danos relevantes.
O infectologista Leonardo Ruffing, do Hospital Vera Cruz, alerta para o risco associado ao uso de produtos contaminados em procedimentos como higienização de cateter, sonda ou inalador: “Se o produto for utilizado para higienizar um cateter, uma sonda ou um inalador, por exemplo, a bactéria vai ter um acesso facilitado, e pode causar uma infecção indireta”.
Daiane Ribeiro explica que produtos contaminados perdem eficácia de limpeza, possivelmente por falha no conservante ou problemas de higiene na fábrica, e destaca que a presença de Pseudomonas aeruginosa em desinfetantes é especialmente preocupante: “Neste caso específico da Ypê, o que preocupa é justamente a presença em produtos de desinfecção, o que justifica a medida da Anvisa”.
Um estudo da Universidade Politécnica de Hong Kong, publicado no ano passado na revista Microorganisms, classifica a Pseudomonas aeruginosa como uma das principais causas de infecções hospitalares. Os pesquisadores ressaltam sua capacidade de formar biofilmes — colônias protegidas por uma matriz viscosa que atua como escudo físico —, permitindo sobrevivência em ambientes hostis, como frascos de produtos de limpeza. A bactéria também possui mecanismos que a tornam até 100 vezes menos permeável a antibióticos, agravando o risco de cepas multirresistentes.
Em nota, a Ypê afirma que “possui fundamentação científica robusta, baseada em testes e laudos técnicos independentes, atestando que seus produtos das categorias lava-louças, lava-louças concentrado, lava-roupas líquido, e desinfetante são seguros e não representam qualquer risco ao consumidor”.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) identifica a resistência antimicrobiana como uma das dez principais ameaças à saúde pública mundial.
Com informações da Folha de S.Paulo.