Geral - -
De navios da peste medieval à Covid: como embarcações se transformam em focos de epidemias
Termômetro da Política
Compartilhe:

Desde a Idade Média, navios têm sido repetidamente palco de surtos que se espalham com rapidez devido ao confinamento prolongado e à proximidade constante entre passageiros e tripulantes. O que começou com a chegada da peste à Europa por marinheiros genoveses continua a se repetir em diferentes formas, como visto recentemente com o hantavírus no MV Hondius e com surtos de gastroenterite em navios de cruzeiro.

Cruzeiro MV Hondius viajava da Argentina para Cabo Verde
Cruzeiro MV Hondius viajava da Argentina para Cabo Verde (Foto: Reprodução/BBC)

O historiador norte-americano Alfred Crosby, em sua obra de 1918, resumiu o perigo desses ambientes: “O pior lugar para enfrentar uma epidemia, como um incêndio, é um espaço fechado e distante de qualquer socorro, como um navio em alto-mar”.

Jean-Pierre Auffray, presidente de honra da Sociedade Francesa de Medicina Marítima, explica que o risco é duplo: “a transmissão da doença em terra e a infecção das pessoas a bordo”.

Segundo ele, navios são ambientes fechados com contatos prolongados, repetidos e próximos, favorecendo especialmente doenças transmitidas por via aérea, como gripe e Covid, ou por contato e alimentos, como norovírus.

Leia também
Nova Quaest aponta Lula numericamente à frente contra Flávio Bolsonaro e empate técnico no 2º turno

Durante a pandemia de Covid-19, vários navios se tornaram exemplos dramáticos. O Zaandam ficou à deriva por dias com doentes a bordo, sendo rejeitado por vários países da América Latina antes de atracar na Flórida. O porta-aviões francês Charles de Gaulle teve centenas de marinheiros infectados. Embora navios de guerra e de cruzeiro transportem populações diferentes — militares jovens versus turistas idosos —, a dinâmica de contágio é semelhante, com compartilhamento constante de equipamentos e cruzamentos frequentes entre as pessoas.

Auffray, que lançará em junho o livro Infections en milieu maritime, observa que houve avanços após a Covid, com melhorias na ventilação, criação de cabines de isolamento com circuitos sanitários específicos e maior formação dos médicos de bordo. Mesmo assim, a preocupação com a propagação após o desembarque persiste. No caso do MV Hondius, cujos passageiros foram evacuados recentemente, a ministra francesa da Saúde, Stéphanie Rist, afirmou que “não estamos, neste momento, diante de uma epidemia”. Mais de 1.700 pessoas também ficaram confinadas em um navio que chegou a Bordeaux com suspeita de surto de gastroenterite.

No passado, a lógica era ainda mais dura. Durante o cerco a Caffa, na Crimeia, nos anos 1340, marinheiros genoveses levaram a peste para a Europa após o exército tártaro catapultar cadáveres infectados sobre as muralhas. Ao retornar, os genoveses disseminaram a doença. O cronista italiano Gabriele de Mussis registrou o horror: “Ai de nós que lançamos os dardos da morte sobre nossos parentes e vizinhos que vieram nos receber”.

E completou: “Enquanto falávamos com eles, enquanto nos abraçávamos e beijávamos, espalhávamos o veneno de nossos lábios”.

Quarentenas em lazaretos, muitas vezes em ilhotas distantes, eram comuns para evitar que doentes chegassem aos portos. A ética era diferente: o isolamento significava, muitas vezes, deixar as pessoas morrerem no mar para proteger a terra. Hoje, com rastreamento possível e evacuações organizadas, o risco de contágio após o desembarque é menor, mas navios continuam a representar um desafio sanitário clássico devido à sua natureza fechada e isolada.

Com informações do portal UOL.

Compartilhe:
Palavras-chave
hantavírus